A (a)culturação no filtro dos sonhos: os índios no RS
Sexta, 04 de Dezembro de 2015

Desde pequeno (e acredito que a todos) a cultura e o povo indígena despertaram curiosidade. Todos temos uma relação própria com isso, seja pelos filmes de faroeste americano, nos quais sempre havia um índio da cara vermelha amigo ou brigando com o “homem branco”, ou pelo contato que muitos de nós tivemos pela oportunidade de residir próximos, cruzar por regiões ou mesmo por pertencer de algum modo à cultura dos índios.

Foi referência na minha infância e até ganhei de presente certa vez um arco e flecha. Qual era a cor daquele artefato? Afora a natural da palha em si, lembro claramente do amarelo e do roxo. Alguns podem ter uma noção melhor das cores e um pantone mais acurado, mas basicamente é isso que definia a cor típica em todos os balaios (produto muito vendido), colares, pulseiras e lembranças dos índios caingangues.

Outro artefato bem típico (e conhecido no exterior, especialmente nos países da América do Norte) é o filtro dos sonhos. Aquele aro, revestido com couro, uma espécie de trama de teia de aranha preenchendo seu vazio e alguns detalhes com penas e outros penduricalhos abaixo, historicamente utilizado em brincos e algumas tatuagens de hippies ou adeptos da sensação provocada pelo estilo indígena. Esse objeto representou os ameríndios e chegou a servir como símbolo de integração de alguns desses povos na América do Norte, mas mesmo lá sua autenticidade chegou a ser questionada, por ser confeccionado por povos outros que não os que originalmente os faziam.

Sabem o que me chamou atenção, mesmo? Que a cultura dos nossos Caingangues e outros índios no estado do Rio Grande do Sul foi borrada pelas artes que estão confeccionando. Pode ser considerada uma aculturação dos costumes e forma de expressão daquele povo. Todos nós temos consciência que nesses ambientes é repassado para as próximas gerações aquilo que é presencialmente vivido e ensinado pelos seus antepassados. Neste caso, o que as novas gerações desses povos vão fazer é reproduzir o que não é de fato característico de sua cultura. Reparem nas margens das rodovias (onde geralmente os índios no Rio Grande do Sul têm habitado), quais são os principais produtos expostos? Filtro dos sonhos! Dos sonhos de outros países, de outras culturas, dos sonhos que não são nossos, ao menos não os meus!

Dias atrás vi uma lembrança entregue em um evento: novamente o filtro dos sonhos, certamente confeccionado pelos índios no RS. Não é crítica a quem comprou ou à necessidade de renda para subsistência daquelas comunidades nativas. Compraram porque foram produzidos e produziram porque iriam vender. Mas permanece a reflexão.

Anos atrás, lá por 2000, igualmente reparei outra mutação (não evolução). Os cestos e balaios, citados acima, estavam sendo confeccionados em raízes e cordas cipó em marrom escuro, natural. Quem sabe os Caingangues tiveram que se adequar às demandas do mercado, pois sua produção no amarelo e roxo eventualmente não mais atraíam os consumidores. Neste caso, de cultura, restou apenas a habilidade e expertise dos índios como exímios artesãos.

Não por nada, mas esses nativos deveriam ter que trabalhar para “viver”? Pela legislação devem ser protegidos. Conseguiriam fazer isso, mas preservando suas tradições e costumes?

Qual será a próxima tendência de mercado?

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