Veste a camisa, não pode dirigir com insegurança jurídica!
Sexta, 22 de Abril de 2016

Estávamos meu irmão e eu retornando de uma viagem de pesquisa de mercado em Assunção/Paraguai, há pouco mais de 15 anos. O dia era de muito calor e nós com um Uno Mille sem ar condicionado. Enquanto um dirigia no revezamento da viagem de cerca de 1.200Km a São Leopoldo, o outro descansava, ´refrescando-se´ com o vento aquecido que vinha de fora.

Avistamos uma viatura da policia caminera e, como se poderia esperar, fomos atacados. Pediram o documento do veículo e pessoais (esse era nosso passaporte para poder seguir viagem) e prontamente em alto e bom espanhol, estufaram o peito e dispararam: “Não sabiam que não se pode dirigir sem camiseta?”. Pronto, estava criado o cenário para a propina. Que situação desagradável, que sensação de fragilidade, fraqueza, impunidade.

Primeiro que nem era o motorista sem camisa, segundo que certamente não haveria nada no código deles a prever isso. A propósito, se fosse o caso já teria aplicado uma multa e seguiríamos nossa vida de cidadãos internacionais no Mercosul, mas isso não ocorreu enquanto não recuperássemos os documentos.

Viremos a página (do mesmo livro): até antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, era voz corrente na mídia que para o mercado, simbolicamente quanto pior, melhor. Quem sabe o termo mais adequado seria quanto melhor, melhor. Se a possibilidade de a presidente cair fosse elevada, subia a bolsa e caia o dólar. A cada nova notícia nesse sentido, a lógica provava-se verdadeira. Ou seja, o afastamento da chefe do executivo era sinal de boa notícia, sinal de que as indefinições de comando seriam sanadas, sinal de que as dúvidas que pairam sobre o cenário político e econômico na até então promessa mundial seriam resolvidas e todos aqueles nacionais em dúvida sobre investir e gastar ou estrangeiros em aportar recursos no país se decidiriam e o fariam. Sim, sofremos de uma crise de confiança.

O câmbio só não se valorizou mais porque o governo interveio jogando uma queda de braço artificial e a taxa já havia caído no final da semana, refletindo as expectativas daquilo que se esperava: a queda da mandatária.

Assim como eu não confio 100% no que encontrarei na próxima viagem a Assunção, o que vocês acham que o mundo pensa sobre a segurança que encontrará no Brasil? Das informações que hora valem (antes dos ´outubros´) e depois são desmascaradas e mostram duvidosas, enganadoras ou infundadas (pós voto de confiança popular)? Exato, a confiança foi abalada.

Não gostaria de estar no mesmo hall do estigma que historicamente maculou a maioria dos países latino-americanos, caracterizada pela corrução, descontrole de gastos, populismo e acima de tudo insegurança institucional e jurídica. O Brasil já estava em outro nível, no entanto poderemos passar uma geração para os que hoje sabem do que aconteceu conosco voltem a acreditar que podemos ser um país sério. Mais ou menos como no custo do seguro, os bons pagam pelos maus e uma camisa ou sua cor pode ensejar ato de ilegalidade.

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