Movimentar a economia: a história que tem verdades, mas falta um pedaço da verdade!
Sexta, 08 de Julho de 2016

Recentemente tem circulado nas mídias digitais uma estória cuja moral é a seguinte: se o dinheiro circula, não há crise. Ela (adaptada) é mais ou menos assim:

“Em uma cidade, os habitantes estão endividados e vivendo às custas de crédito. Por sorte, chega um viajante rico e entra num pequeno hotel. O mesmo saca uma nota de R$ 100, põe no balcão e pede para ver um quarto. Enquanto o viajante vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro.

Este pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo. O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota em mãos, vai até a livraria pagar o que devia. Este comerciante, por sua vez, prontamente paga o representante comercial que devia e que estava lhe visitando naquele instante. O representante comercial sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar que mensalmente servia como seu ´lar´ em viagem e cujas acomodações ultimamente não havia pago e liquida a conta.

Nesse momento, o gringo retorna ao balcão, pede a nota de volta, agradece mas diz não ser o que esperava e sai do hotel e da cidade”.

Moral da estória: Ninguém ganhou nenhum vintém, porém agora toda a cidade está tranquila.

Moral econômica 1, que é justamente a verdade que a estória tem e o sentido que tem se atribuído a ela: quando o dinheiro circula, não há crise.

Obviamente estamos tratando de uma simplificação das condições reais de economia e mercado, abstraindo-se uma série de variáveis e fatores, favorecendo a interpretação. Não há nada de errado nisso, pois, em se tratando de uma ciência humana, a Economia não tem laboratório. Seu local de ´experimentos´ é a própria sociedade, as relações sociais e justamente por essa razão há a necessidade de simplificação para se entender o que acontece quando mudamos uma variável.

Neste sentido, a variável alterada foi o montante de dinheiro injetado no mercado. É exatamente assim que funciona. Existe uma coisa chamada Multiplicador Monetário. Em poucas palavras, podemos medir quantas vezes o ´mesmo dinheiro´ circulou. Em uma economia aquecida esses valores são mais elevados, justificando exatamente a euforia ou positivo estado de ânimo dos agentes.

Moral econômica 2, que é a parte de verdade que não está na estória: sempre está presente nos agentes o custo de oportunidade, ou seja, o valor do dinheiro no tempo, a custo do capital, a taxa de juros. A pergunta é: o que se estaria fazendo com determinado recurso (financeiro ou não) caso não estivesse fazendo o que está fazendo?

Racionalmente não há empréstimo de dinheiro livre de encargos e custo financeiro. A estória só serviu de exemplo pois esse fator não foi considerado. A começar, o viajante, em um mundo real, seria o primeiro remunerado pelo dinheiro que emprestou.

Mas vale acreditar, e é fato, que se o dinheiro circula, os efeitos de prosperidade são sentidos.
 

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