A seriedade de um discurso, o humor da piada ou a rigidez da cobrança da lei?
Sexta, 31 de Janeiro de 2014

Uma das tradições dos Estados Unidos é o discurso dirigido ao povo que o presidente faz no Capitólio, conhecido como Discurso do Estado da União. É sem dúvida um momento de simbolismo, quase como se o líder nacional estivesse fazendo um relato sobre a situação da nação e as estratégias traçadas e declaradas para o ano.

Neste quesito, já faço dois comentários. Primeiro, que Obama falou nesta terça abertamente que não esperará pelo apoio ou aprovação do Congresso, pois acredita que as proposições e ações refletem o desejo da maioria da população. Enfrentamento distinto do que se espera em geral de um governante, de fazê-lo sempre com maioria e baseado em acordos de trocas políticas. Em segundo, o tipo de exposição proposto pelo presidente, que simboliza o momento em que o gestor nacional 'conversa' com o povo, como se cada um estivesse ao seu lado em diálogo próximo. 

Isso dá uma sensação tão real de que a política americana valoriza aquilo que de fato é, ou deve ser: a máxima de que o poder emana do povo e a ele deve servir. Não aos objetivos pessoais dos governantes, de seus filhos, de grupos, ou dos amigos do partido, mas à coletividade da sociedade. A fala dele é como se estivesse prestando contas à população e recebendo dela o aval necessário para seguir adiante.

É interessante como a política nos EUA funciona. Primeiro, porque são ligeiramente informais, a ponto de fazerem piada de si mesmos, primordialmente em períodos de campanha e em eventos de arrecadação de fundos para tal, sem receio nem de perto de serem menosprezados ou mal vistos pela população. Além disso, por manterem costumes bastante populares, como o momento em questão. De outra parte, a crítica é severa e nenhum cidadão terá 'papas na língua' para em alto e bom som se posicionar contra o governo ou seus projetos.

Coisa parecida acontece no parlamento inglês. Como é pitoresco ver o Primeiro-ministro falando na Câmara dos Comuns, a poucos metros dos parlamentares, nada parecido com a pompa e grandeza peculiares ao nosso caso.

Em um trecho da declaração, Barack diz que as mulheres "merecem a possibilidade de ter um filho sem sacrificar seu emprego" e a mãe ter um dia livre para dar atenção a um filho doente, pedindo que o Congresso e o setor empresarial se unissem "para oferecer para cada mulher a oportunidade que elas merecem".

Vejam, pedindo autonomamente que a sociedade constituída e representada pela população faça por si um desejo coletivo e que certamente terá ouvidos pelo convencimento e certeza de que a liberdade de ação trará diferencial e crescimento ao estado, aos trabalhadores e aos negócios. Fiquei pensando, o que poderia se esperar em nosso país, além de uma legislação bastante complexa e estruturada aplicando a uma classe os custos e responsabilidade por isso, de forma direta e impositiva?

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