Política (Parte 1)
Sexta, 30 de Setembro de 2016

O que observamos hoje na sociedade dita organizada? Uma realidade que consiste em grupos de pessoas da mesma afinidade, credos ou até com interesses em comum, buscando autoafirmar-se ao combater uns aos outros. Isto se reflete claramente dentro do campo político das nações, impactando a todo observador que consegue se pôr à parte dessa realidade conflitante. Para entender e praticar a verdadeira política, devemos primeiramente compreender os motores psicológicos escondidos nesses conflitos da sociedade, aceitando o próprio conflito em si como sendo uma parte da prática individual e coletiva que constitui a instituição social.

Atualmente, não se luta pela humanidade, mas por um grupo, uma classe, um sindicato, uma seita, um partido de interesses criados com reminiscências psicológicas infantis, sob as desculpas e justificações daquilo que é chamado pomposamente de “nação”.

Não se analisa a função do homem no cosmos nem as suas relações com a natureza, mas sim seus instintos, seus costumes, seus pequenos receios e suscetibilidades. Não se constrói pensando para o futuro, não se elaboram etapas grandiosas para a passagem augusta dos séculos, mas apenas suaves colinas de areia que sirvam para alguns anos. Como dizia o filósofo argentino Jorge Ángel Livraga Rizzi, que tanto nos inspira neste momento: “Amanhã… quem acredita, quem sabe se existirá um amanhã?”

Sabemos que, no fundo de cada homem, palpita uma intuição da sua própria importância e eternidade, e, não podendo encontrar um sinal de demarcação adequado para nenhuma obra verdadeiramente grande, sobrevêm-lhe os tão comuns estados de angústia e desalento.

Apesar das numerosas tentativas para resolver esse grave problema, os idealistas do mundo inteiro não chegaram, em concreto, a criar algo que corresponda em pureza e dimensão ao motor que os move.

Neste contexto, seria a política realmente uma forma religiosa, um culto a mitos indeterminados, uma forma de exploração inventada pelos menos escrupulosos? Ou poderia ser uma ciência e uma arte, apta a guiar as multidões desde os seus fundamentos animais até o cume das civilizações filosóficas, como tão bem definia Platão?

Infelizmente, aquilo que se entende hoje por “política” está mais relacionado com a primeira do que com a segunda pergunta. Essa situação tem induzido muitos jovens idealistas, de espírito esclarecido, a evitarem um contato, nem que seja teórico, com a política. Mas isso é um engano, pois é confundir o entulho que as facções colocaram na estátua milenar da política com a estátua em si. Limpemos a estátua através de uma mudança de conscientização e a veremos surgir, uma vez mais, resplandecente na sua serena beleza imaculada.

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