A dor e o prazer
Sexta, 16 de Maio de 2014

Pergunte a qualquer ocidental sobre a relação entre a “dor” e o “prazer” e muitos irão responder que se trata de duas sensações diametralmente opostas, a primeira, responsável por causar sofrimento e a segunda por desenrolar sentimentos de alegria e satisfação. Sob seu ponto de vista, o prazer estaria no grupo das sensações “agradáveis” e a dor no grupo das sensações que causam “desconforto”, sendo, portanto, distintas. Poderiam também dizer, aqui no ocidente, que no meio destes dois tipos existe ainda uma sensação de terceira natureza, a “indiferença”, em que nem dor nem prazer se manifestam.

Agora pergunte a um oriental que viva sob a influência da sabedoria milenar enraizada em sua cultura tradicional. A resposta provavelmente será: a dor e o prazer aparentam ser sensações de duas espécies, mas não são distintas. São, na verdade, manifestações a que chamamos “dolorosas” e “não dolorosas”. 

Um ocidental imediatamente retrucaria: mas por que não considerar que uma é “dolorosa” e a outra é “agradável”? E que ainda por cima podemos ter uma terceira espécie de sensação entre elas, a da indiferença?

O oriental naturalmente responderia: é para evitar controvérsias e imprecisões em nossos modos de pensar que usamos a divisão lógica e exata do “A” e do “Não A”. Entenda bem, a dor e o prazer não são dois estados opostos, duas sensações distintas. A vida é como um rio, cuja corrente segue calma e imperturbável em seu curso natural rumo ao mar, rumo ao grande oceano que é Deus. Se lhe opusermos um obstáculo, a sua marcha se perturbará e as suas ondas, lutando furiosamente contra o obstáculo, esforçar-se-ão por derrubá-lo. O obstáculo, o afrouxamento da corrente antes tão tranquila, é a única causa do esforço. O prazer, em si, é uma ilusão a qual não devemos aspirar, pois em sua própria concepção ele representa o esforço infundado de imaginar que as águas possam subir rio acima, em sentido contrário ao curso natural do rio, cada vez que encontram um obstáculo. 

Os sofrimentos são obstáculos que surgem em nossa vida “não” para nos provocar impulsos em direção ao prazer, mas com o objetivo de despertar nossa consciência para o mundo exterior que nos cerca e não sermos apenas um rio indiferente que não sabe para onde e porque correm suas águas. Deus quer que conheçamos as margens que nos limitam, que nos esforcemos para organizar gradualmente nossos veículos de navegação, que percebamos nossa inserção no imenso universo que ele mesmo criou. Superar a dor com força própria de acordo com o curso natural da vida é que faz parte do verdadeiro despertar.

Tenha uma boa semana!

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