BACTÉRIA DO ESTÔMAGO (Helicobacter pylori)
Sexta, 09 de Janeiro de 2015

BACTÉRIA DO ESTÔMAGO (Helicobacter pylori)

Muitos pacientes vem me procurar porque  foi-lhe diagnosticado que tinham bactéria no estômago.  Como proceder?

Para responder esta questão vamos iniciar pela história. Em 1982 o italiano Bizozzero identificou uma bactéria no estômago das pessoas. Seu estudo foi esquecido. Nas décadas de 70 a 80 o assunto foi retomado. Dois australianos Warren e Marshal estudando o tema isolaram essa bactéria de pessoas com úlcera e a cultivaram. Posteriormente ingeriram essa cultura ficando os dois doentes do estômago. Houve um grande entusiasmo, pois a úlcera e as gastrites até então consideradas de causa desconhecida tinham uma causa: a infecção do Helicobacter pylori. 

Esse relato foi feito no Congresso Mundial de 1986 quando um grande entusiasmo tomou conta dos especialistas que iniciaram de imediato uma combate à bactéria, afinal matando-a estariam curadas úlceras e gastrites. Aos poucos deu-se em conta que se havia redução da recidiva  das úlceras mas o mesmo não acontecia com as gastrites. A partir de então milhares de pesquisas foram feitas financiadas, no geral, por Laboratórios Farmacêuticos ou Universidades. Embora ainda não há um consenso universal muitas conclusões foram tiradas.

Epidemiologia: O H.p é uma bactéria que infecta os estômagos humanos desde os primórdios pois foram encontrado em homens pré históricos. Atualmente todos os povos o apresentam. Os países desenvolvidos têm uma taxa de infecção de 50% nos adultos e muito pequena nas crianças. Os países em desenvolvimento como o Brasil têm uma taxa de 80% de infecção nos adultos sendo que crianças de 10 ou mais anos de idade  fequentemente estão contaminadas. À medida que as condições sanitárias avançam reduz a infecção. O Japão tinha um taxa de 80% em 1970, hoje não chega a 30%, devido à melhora das condições higiênicas. Mulheres e homens são igualmente  contaminados.

Contágio: não se conhece exatamente a maneira de contágio. Sabe-se que a água, os alimentos são fontes de contágio bem como a aglomeração de pessoas. Rios, lagos e piscinas também podem ser fonte de contágio devido à ingestão inadvertida de água. Aparelhos de endoscopia mal esterilizados  também podem contaminar.

Diagnóstico: O diagnóstico pode ser feito por exame de sangue(sorologia), de fezes, testes respiratórios e outros não invasivos, mas, mais frequentemente em nosso meio é feito através da biópsia guiada por endoscopia do estômago. 

Sintomas: O H.p. não causa sintomas, pois a grande maioria dos pacientes que o têm nada sentem. Paciente com úlceras, gastrites ou câncer apresentam sintomas, que se deve à doença existente e não â bactéria. 

Indicação de tratamento do H.p.: O Consenso Europeu definiu que as  úlceras péptica duodenais ou gástricas se beneficiam com a erradicação da bactéria que determina uma redução de suas recidivas. Também está indicado o tratamento em uma neoplasia rara chamada linfoma Malt sabidamente causada pelo micróbio. Segundo os médicos europeus outros tratamentos para a bactéria não tem unanimidade dos profissionais ainda para indicação formal. No Consenso Brasileiro inclui-se outras situações como pós operatório de câncer gástrico ou de ressecção endoscópica de câncer gástrico inicial. Ainda é indicado em pacientes que terão de tomar medicamentos anti inflamatório de maneira prolongada, principalmente os que já tiveram úlceras. Em ambos os Consensos não há indicação para tratamento em pessoas que tenham gastrite crônicas, pangastrites e gastrites de antro. Também sua erradicação não está indicada na doença do refluxo.

Até há pouco tempo atrás havia o conceito de que o câncer de estômago seria provocado pelo H.p. e todo familiar de pessoas que tivessem a doença deveria pesquisar e tratar o micróbio. Não se aceita mais esta ideia em nosso meio. Continua ainda válida em regiões que tem alta prevalência de câncer do estômago como o Japão, a China e alguns países da América Central. A dúvida sobre sua casualidade se dá quando se encontram populações altamente infectadas e com pouca incidência do câncer, sendo que outros fatores parecem mais importantes como a alimentação, temperos e a exposição a tóxicos ambientais.

Comprovação de cura do H.p.: Muito usado no meio médico, ao meu ver não é necessária, mormente se depender nova endoscopia que por si só tem risco de recontaminar. O acompanhamento dos sintomas  ao meu ver é mais eficiente pois se a pessoa ficar sem sintomas é um sinal efetivo. Se exigida que se faça através de exames não invasivos que podem dar resultados falso positivos

Concluo com uma frase de um grande estudioso no assunto dos Estados Unidos, Martin Blaser: "Esta bactéria faz parte de nosso organismo. Sua erradicação pode ser a causa de doenças modernas." 

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