OVERDIAGNOSIS (Parte 1)
Sexta, 09 de Outubro de 2015

Esta é uma palavra para a qual não se encontra uma tradução literal. Overdiagnosis refere-se a um diagnóstico estabelecido por exames médicos que não tem importância clínica e que não tem impacto na qualidade e nem na quantidade de vida do paciente. Esses achados conduzem o médico, muitas vezes, a realizar outros exames e tratamentos desnecessários, colocando a saúde e a vida do paciente em risco com altos custos monetários e psicológicos sem comprovação de benefícios para o portador dessas alterações.

É um tema que tem preocupado especialistas do mundo inteiro, sendo que a partir de setembro de 2013, em Congresso realizado na Universidade de Dortmouth, EEUU, decidiu-se que serão realizados anualmente novos congressos para análise de um tema que tem assustado o mundo científico, pois exames e tratamentos médicos já são a quinta causa de morte entre os americanos do norte.

O professor Antonio Frederico Magalhães fez uma adequada análise sobre o problema no Jornal da FBG de 2014, o que nos orientou a lembrar de situações que temos cada vez mais vivenciado em nossa prática clínica.

Em 1994, o N.Eng J.Med publicou um editorial chamado "The last well person", na qual chama atenção que, procurando com insistência, todas as pessoas maiores de 50 anos terão doenças crônicas que, não descobertas, não alterariam a vida das pessoas. Se descobertas por exames trarão preocupação, agravo psicológico e muitas vezes medicamentos que mais prejudicam do que auxiliam.

No Canadá e nos Estados Unidos foram criadas ONGs. Chamadas ”Task Forces" para disciplinar a indicação de exames, pois as Sociedades Especializadas tendem a superindicar tais procedimentos para auferir maior rendimento para seus associados.

Em 2010, a revista Arch. Intern. Med. demonstrou que 39,8% dos exames de imagem mostravam tumores ocasionais, chamados incidentalomas, que não determinam sintomas e muito menos comprometimento da saúde dos pacientes.

Welch Hg, em trabalho publicado no. JAMA Intern Med 2014; 174:448, avaliando mulheres que faziam mamografia anual durante dez anos, constataram:

• Mil mulheres com menos de 40 anos, fazendo durante dez anos seguidos mamografias, tiveram 1 morte evitada pelo diagnóstico precoce; 510 tiveram falsos alarmes, 60 foram biopsiadas e 11 foram operadas e tratadas para câncer indevidamente.

• Na mesma experiência, mulheres com mais de 60 anos, o resultado de mortes evitadas por diagnóstico precoce subiu para 5, sendo que 390 tiveram falso alarme; 50 foram submetidas à biópsia e 20 tiveram overdiagnosis, sendo operadas sem necessidade.

O estudo demonstrou ainda que fazer mamografia antes dos 50 anos em mulheres assintomáticas e sem história familiar é indevido e que, após os 50 anos, o exame deve ser feito de dois em dois anos. Concluíram, no entanto, que os ginecologistas devem ensinar e insistir que as pacientes realizem o autoexame das mamas.

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