Hipocondríaco – cibercondríaco (Parte 2)
Sexta, 17 de Fevereiro de 2017

Nos últimos tempos temos recebido pacientes que são chamados pelo cardiologista gaúcho Wagner Michael Pereira de "cibercondríacos", pois procuram na internet informações sobre seus sintomas e passam a se autodiagnosticar doenças raras ou inexistentes. No momento que concluem serem portadores daquela doença, passam a sentir progressivamente os sintomas da mesma, chegando às vezes a uma paranóia difícil de reverter.

O Google é uma excelente ferramenta de busca e a imprensa tem grande valor na informação. Ambos, no entanto, são vítimas de informações falsas recebidas de laboratórios, de empresas ou de profissionais inescrupulosos que as manipulam para tirar vantagens nas vendas de seus produtos. Não se pode culpar nem a internet e nem a imprensa, pois eles também são vítimas das falsas informações que repassam aos seus usuários. Todo o médico deseja que seus pacientes sejam informados sobre sua doença, pois a recuperação será tanto mais fácil quanto mais conhecimento o paciente tiver sobre ela. Assim, encontramos efeitos positivos bem como negativos no paciente que procura suas informações antes de consultar o profissional. Relato dois casos ocorridos em meu consultório para exemplificar estas situações.

1- Uma mulher jovem, 25 anos, com curso universitário, vivendo problemas no casamento e com a responsabilidade de cuidar de dois filhos, uma vez que seu cônjuge em nada ajudava, iniciou com dores à altura do estômago. Consultou o Google que informou-lhe que dores no estômago poderiam ser devidas à intoxicação alimentar, à inflamação, a úlceras, à infecção e até a um câncer de estômago. Ansiosa e sem tempo para ir ao médico, passou a admitir que tinha um câncer de estômago. O câncer de estômago, cada vez menos frequente em nosso meio, surge na quase totalidade das vezes após os 50 ou 60 anos. É rara em jovens. Com esse autodiagnóstico, começou a ficar com medo de comer, emagreceu, empalideceu e ao voltar ao Google teve certeza de que tinha esta doença. Sorte dela é que tinha um tio atento e, contra a vontade dela, trouxe-a para consulta. Exame clínico normal, endoscopia normal, foi acrescentado um tranquilizante e uma vitamina e em poucos dias estava assintomática e trabalhando normalmente.

Um filósofo britânico, Guilherme de Occan, recomendava sempre que se tiver muitas possibilidades de escolha, deve-se optar pela mais simples e mais frequente. Esta atitude chamada de navalha de Occan nos orienta quando tivermos de escolher em situações dúbias. Se a paciente seguisse essa sugestão teria escolhido uma doença benigna que corresponde a mais de 99% dos casos, mas devido ao seu estado emocional, optou pela mais rara e mais grave.

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