A angústia dos pequenos produtores de leite
Sexta, 20 de Fevereiro de 2015

O leite se constitui numa atividade tipicamente de agricultura familiar na Região do Médio Alto Uruguai do Rio Grande do Sul. Para muitas propriedades é a atividade principal e para a maioria é renda complementar, mas fundamental para fazer frente às necessidades da casa, ditas como “miudezas”. As contas de energia elétrica, telefone, gasolina, supermercado, farmácia e outros desapertos vêm do leite. O dia do pagamento é esperado, como é esperado que o dinheiro recebido dê para saldar estas contas e sobre para outros custeios. 

Nos últimos anos, a atividade vinha com uma remuneração satisfatória e fortes incentivos para o setor foram disponibilizados pelos governos do Estado, união e municípios. A unanimidade sobre a relevância da atividade conjugou esforços e a assistência técnica se empenhou para canalizar os incentivos e orientar os agricultores. Tudo vinha bem quando em 2013 veio a tona a fraude no leite. Fraude que foi descortinada em maiores proporções em 2014 terminando o ano com empresários presos, preço do leite em queda livre e muitos agricultores angustiados sobre a falta de garantia da comercialização.

Hoje, em muitas propriedades a angústia beira o desespero porque os investimentos que foram feitos não são compensados pela remuneração do leite pago. Maior dificuldade tem aquele que produz até 10 mil litros mensais e tem na ração concentrada e na silagem a base do alimento. Aquele que fornece alimento a base de pasto e tem produção maior, embora o preço também esteja baixo, produz com menor custo lhe garantindo melhor rentabilidade. Mas porque o preço caiu tanto? Qual a perspectiva?

Tudo é uma questão mercadológica. O mundo está produzindo mais leite. Os analistas de mercado apontam que os principais países produtores aumentaram sua produção. Exemplos: a Nova Zelândia aumentou 9%, os países do Mercado Comum Europeu 4,5%, os Estados Unidos 2,4%, a Austrália2 %, o Uruguai1 % e, o Brasil oscilou de 7 para 12%.  A grande produção brasileira se deve aos incentivos que os governos vêm dando para a atividade onde começa a surgir os resultados. Mais leite no mercado e menos consumo resulta em sobra de produto. Para os produtores brasileiros o maior mercado é o interno, cujo pico de produção coincide com o verão e com as férias escolares, que tem pouco consumo de leite. 

A perspectiva dos analistas é de que o preço aumente gradativamente com o aumente do consumo com a volta às aulas e com a chegada do outono e inverno onde os derivados do leite são mais atrativos. Mesmo assim, a recuperação do preço pode levar todo o ano de 2015. Contudo, também a moeda brasileira vem perdendo poder de compra, porque aquilo que se comprava com a remuneração de um litro de leite quando se implantou o real há 20 anos, hoje são necessários 2,5 litros. O certo é que o leite deve ser produzido a baixo custo com o uso de insumos internos a propriedade, um bom manejo do rebanho, técnicas preventivas e, persistência para a qualidade.

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