O desafio das pequenas propriedades familiares
Sexta, 24 de Abril de 2015

Nos últimos anos as pequenas propriedades vêm sofrendo fortemente os impactos do livre mercado. Os preços e as exigências de qualidade dos produtos não respeitam mais o mapa geopolítico dos países, mas são ditadas pelo mercado. A legislação que regra a produção, a transformação e o mercado tende a nivelar-se mundo a fora. Além disso, tem o ordenamento legal sobre o meio ambiente, sobre o bem estar animal, sobre o conforto dos trabalhadores, sobre a propriedade intelectual e assim por diante. Um emaranhado e complexo estofo legal de difícil compreensão para os agricultores que os desanimam. Somam a isso as exigências de qualidade, de quantidade, de constância de fornecimento dos produtos de melhor valor agregado que torna difícil a produção em pequena propriedade.

De fato! Antigamente as exigências eram poucas. Tudo o que era produzido era de comercialização mais fácil. A produção também exigia menos insumos. Os custos eram menores. Havia mais gente no meio rural e o trabalho era braçal. A maioria dos alimentos chegava à casa dos consumidores in natura. Mas, isso tudo foi mudando. Mais gente foi para a cidade. Mais conhecimento foi gerado. Os insumos externos, as máquinas e os equipamentos fizeram frente às necessidades de produção. Menos gente no campo, porém produzindo mais.

A tecnologia foi incorporada a produção. Muito conhecimento foi embutido nos vegetais, nos animais, no manejo da produção e assim por diante. O nome e a aparência dos produtos agrícolas ou pecuários permanecem os mesmos, mas o que ele traz por dentro é muitíssimo diferente. Cito como exemplo o milho que na década de 1960 no Rio Grande do Sul a melhor média produtiva foi de 1800 kg/ha (27 sc/ha). Segundo a CONAB o ano de 2015 a produtividade do milho no RS deverá fechar em 5.940 kg/ha (99 sc/ha). Contudo, conforme estimativa de custos de produção da Fecoagro divulgada em setembro/14 a lavoura de milho chegaria a 104 sc/ha. Então, 104 sacas/ha é o ponto de equilíbrio. Significa que se é para ter lucro a produtividade tem que ser maior que isto. Em condições controladas temos tecnologia para produzir 700 sacas/ha afirma os pesquisadores. A biotecnologia está sendo o fator decisivo para a alta produtividade. Engenharia genética. Porém, os custos exigem escala de produção para haver compensação.

Citei o milho porque é o produto mais cultivado e de fácil compreensão. No entanto assim está a soja, o trigo, o fumo, o leite, o suíno, o frango, o feijão entre outros. Tudo isto produz na pequena propriedade. E, pode ser produzido com altas produtividades. No entanto a lucratividade é que se discute. Quanto é necessário produzir para ter compensação financeira? O jeito é transformar, ou seja: agregar valor na matéria prima. No entanto, novamente devemos nos perguntar: quanto devo transformar para recompensar os investimentos? 

O desafio das pequenas propriedades familiares é acompanhar a tecnologia produzindo numa escala menor, porém com lucratividade. Tarefa difícil! Só vejo saída através do associativismo ou do cooperativismo.

Comentários