As turbulências que afetam o agronegócio
Sexta, 27 de Janeiro de 2017

Não é somente porque Donald Trump assumiu que os mercados se inquietaram e afetaram o agronegócio. Na verdade os reflexos aqui sentidos, principalmente nos preços agrícolas, são fruto do que acontece mundo afora e também aqui no Brasil. Cito o exemplo de dois produtos: o milho e a soja. O preço do milho vem caindo em função da safra que entra no mercado. Apesar de a safrinha ter maior expressão na produção nacional, a entrada do milho safra já supre a demanda, por enquanto, equilibrando os preços a valores históricos. No entanto, o preço pago ao produtor (R$28,00/sc), dependendo da tecnologia aplicada, não cobre os custos de produção que rondam R$28,22/sc. O mesmo acontece com a cultura da soja, cujo custo de produção está por volta de R$38,00/sc e o preço de mercado é de R$66,00/sc. No caso do soja, além de iniciar a colheita no Centro Oeste, a produção norte americana foi recorde, suprindo os estoques, a demanda pelas indústrias e as exportações. Os ganhos do agricultor sempre estão apertados porque sobre a produção, recai a flutuação do dólar, o preço dos combustíveis, as adversidades climáticas, o ataque de pragas e de doenças, entre outros fatores. Por isso, o agricultor precisa estar atento e periodicamente fazer as contas para que suas atividades sejam rentáveis a ponto de ter sobras que lhe capitalizem. Por falar nisso, o valor do salário mínimo suficiente “para suprir as despesas de um trabalhador e sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência” no Brasil é de R$ 3.856,23. Então: o que sobra da produção supre este valor? Se não é suficiente, significa que deve ter ajustes nos custos de produção ou rever as atividades que são empreendidas na propriedade.

Outra questão que preocupa o agronegócio são os cortes no orçamento do Ministério da Agricultura anunciados nesta semana. O orçamento encolheu 14% em relação a 2016. A redução mais expressiva ocorreu na política agrícola, com 46% a menos dos recursos, a Conab com 50% a menos e a pesca que terá orçamento 20% menor. Os recursos da Conab, que prioritariamente iriam para a construção de dez novos armazéns e a recuperação de 90 existentes, foram os mais afetados. O seguro agrícola também ficará prejudicado porque não foi previsto na votação do orçamento da política agrícola. Contudo, os representantes dos produtores devem ficar atentos para forçar a redistribuição de verbas para contemplar esta área tão importante. O corte no orçamento da pesca também põe a região no “rodeio”, porque há empreendimento em implantação por aqui. Um orçamento de R$ 61 milhões para todas as necessidades do país exige que as lideranças envolvidas redobrem as articulações para assegurar o que já está previsto para a continuidade da obra do frigorífico.

Considero que os produtores necessitam fortalecer suas instituições representativas, mais do que nunca, para poder preservar e garantir as conquistas já consagradas e também se fazerem ouvir e terem suas necessidades contempladas em nível de política econômica nacional, porque as turbulências estão afetando em cheio o agronegócio que vem sendo a âncora da economia do país.
 

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