Crônicas modernas, escritas em folhas amareladas de um caderno da estante
Quinta, 20 de Abril de 2017

Ouvindo Foi No Mês que Vem- Vitor Ramil.

Todo outono traz vento, recado do tempo, céus amarelos e plúmbeos com a mesma intensidade de olhos certos. Não havia ali anotação certeira, apenas riscos e rabiscos, mas com tal intensidade que desconcertado depois de encontro bem mais que consonantal, da esquina de lábio e olhar fagueiro, era a luz, o carinho com que andejava com a senhorinha, ao atravessar a rua, sobressaltado, algo aconteceu ao sul do equador, a luz difusa, tomei fôlego e segui, nunca esqueci cena, nem detalhe. Estas coisas que meu DNA entrega, olhar de longo alcance, em algumas situações tem tal força que borda, grava, mesmo na dobra encefálica. Num repente a nota, como se fosse mensagem daquelas de garrafas que são jogadas nos oceanos, nos olhos de cada um de nosotros. Lembrança que vem em suspiros, de forma lenta e gradual, conhece apenas o interminável horizonte, nossa utopia, que caminhamos até, todo dia, mas como disse o brujo Galeano, é para isso que servem, para nos fazer andar, caminhar, mover. Quem se move, move o mundo, inspira e respira sonhos, faz plano, traça listas, por vezes até o final do próximo mês. Desimporta, o frio está lá, já posso sentir o assovio do minuano que anuncia, entre outras coisas, o tempo da dormência da semente. Em tempo deste, o ângulo de olhar altera, fica atrás da ventana, se precavendo do frio ar das elevadas que embarca no fim do mundo e desemboca fazendo curva nos cantos de casas na província de São Pedro. É o ângulo do mate cevado, de sabor acentuado e todo próprio. Um livro que sai e não sai da estante, sentado na cadeira distraindo o tempo que se faz longo em dias assim, folheia uma e outra página, umas marcadas com tinta vermelha de poemas lidos, outras tantas em branco ainda, esperando o riscar da pena que vezenquando solta e trava como o peito que respira com dificuldade quando altero o breu pela luz do teu olhar. Sobressaltos que nos levam a ponta dos ramos mais altos da árvore que balança, antevendo a ventania que se aproxima. Lá no alto pende ainda folha qual a esperança do retorno da mensagem, que se move dentro da garrafa, sempre com o tempo próprio como se desconhecesse a geografia do teu mar oceano, que num piscar pode fazer chegar à praia, ou a face morena, quase despencando em gota serena, cheia de sentimento, mas sem qualquer sonido, num gotejar surdo que corta o peito de quem percebe. Outros são os espinhos cravados em cada face, no lado, a fissura realçada pelo tempo em alguma dobra ou coisa assim, vincos forçados na pele de seda que por momento descansa... Talvez seja o tempo da semente fortalecer para romper a parede e subir para a luz... Sempre existe tempo, até mesmo entre uma e outra onda. Que o outono traga vento que semeia e não maltrate, que espalhe luz e que possa espargir algum saber aqui e ali. Mesmo porque os anjos que ficam nas ventanas sempre nos trazem novidades, o vento espalha semente de árvore, mas também de flores amarelas. Únicas e belas!

Saúde e sorte!

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