In vino veritas!
Sexta, 23 de Junho de 2017

Ouvindo The Wall – O Disco Todo – Pink Floyd

Muitas histórias derivam deste cálice. Aproximadamente sete mil anos antes de Cristo surgiram as primeiras vinhas e os equipamentos para extrair o sumo e o néctar delas. O vinho é bebida ancestral, surgiu no Cáucaso e espalhou-se pelo mundo, começou no velho mundo e hoje temos algumas das melhores vinhas no novo e novíssimo mundo. Conversando com amigos e lendo bastante sobre o assunto, provando cálices entre bojudos e comportados, aprendi a apreciar este sumo. Não por qualquer das excrescências sociais de andar com garrafa embaixo do braço ao entrar em recintos, mas pelo fato de ser uma bebida verdadeira. É evidente que devido à procura, vez em quando provo uns muito bons, mas o que importa é o sabor embarcado. Dia desse, amigo da família trouxe um de vinha própria, fechado à rolha, além de tudo com cera. É, vela derretida. Provei num almoço de domingo entre minha mãe e os filhos. Tal momento se assemelha ao sagrado; após a abertura da garrafa, deixei aerar, na garrafa mesmo (fruto de lição de velho companheiro do CDL de Bento). O perfume do vinho logo tomou a mesa. Claro que a genética italiana facilita esta observação, afinal, os narizes mais lindos e intensos, diria, vêm do país da bota. O bouquet e o sabor chamaram a atenção do filho Gabe, que vinho é esse, pai? É da vinha de velho amigo, filho, aqui perto da terra vermelha. Assim vamos difundindo o gosto e a cultura embarcada nesta bebida milenar e sagrada. A vinha mudou muito de forma de cultivo desde meu tempo de infância. Na casa do nonno, as parreiras tinham o formato tradicional, formando quase a sombra de musgo, entre as linhas de arame esticadas esparramavam seus ramos, galhos que se entrelaçavam em teia de plena beleza. No inverno, como bons gringos, colocavam as vinhas dormirem, podavam na época certa para que revigorassem e florescessem na primavera. No inverno, o olhar das vinhas é bucólico, como se fosse quadro sem vigor, paisagem marrom, vinhas retorcidas, galhos que pareciam secos, sem vida, mas em sua sabedoria, o nonno sabia que estavam hibernando para a nova safra. Não perguntei isso para meu pai, mas dali deveria ter saído belo vinho; na época, o máximo que a criançada provava era o vinho doce. Tenho amigos que labutam neste universo. Um colega de faculdade que faz um dos melhores cortes de cabernet que conheço me cede alguns litros, faz a peripécia de tirar férias em época de vindima para ir trabalhar na terra coberta de vinhas herdada dos pais. Vinho é assim, um universo à parte, uma bebida nobre que mesmo no fim dos terrenos vermelhos, encontra teor decente, tem todo glamour de grandes produtores que, com tempo e investimento, produzem tintos e tantos que o mundo saboreia, degusta e sorve como néctar divino.

Existe uma única exceção que não permito ao redor, empáfia ao tratar de vinho. Esta é daquelas coisas que quanto mais se aprende, menos se sabe. E num cruzar de mundo, você irá encontrar algum velhinho destes que guardam o canivete no bolso, com as mangas do casaco meio furadas, que te darão bela aula, coisa que nem doutoire possa saber, apenas como um luxo de amar a vinha como ato verdadeiro e dedicado. Talvez nesta ocasião, você entenda que um vinho é perfeito para ser bebido entre amigos filosofando com riso franco ou, entre dois seres perfeitamente sincronizados, no momento certo com a dose exata. A visão de lua e estrela potencializam e deixam eternizados momentos, o vinho é combustível para viagens a almas que podem ser gêmeas ou não!

Comentários