Apesar de tudo por aqui, o ipê ainda floresce em agosto.
Sexta, 04 de Agosto de 2017

Bob Seger - Turn The Page


Calendário que muda e as marcas vão sendo esquecidas, algumas delas, como temos na gênese sangue indígena, de uma parte esquecida por uns, mas presente como marca de tinta na pele, velhos batedores indígenas sabiam encontrar rastro de gente, de bicho, mesmo muito tempo depois, creio que isso seja base de estudo de detetives modernos para desvendar algum acontecimento por vezes violento e aparentemente sem pistas. Pistas são recados deixados, por vezes de forma aparente e propositada, em outras, leve nuance encontrar e montar o quebra-cabeça é arte. Todo ano, nesta época, as primeiras cores brotam depois do inverno, por vezes durante ele mesmo, dependem dos meninos La Niña e Lo Niño, que andam bagunçando clima e temperatura por estas bandas do sul do mundo.. O ipê, imagino, seja a primeira florada, antes da primavera, que vem com força no final de setembro, ser precursor tem algumas variantes expressivas, cor intensa, mas de pouca duração, ventos ainda fortes e temperatura baixa, açoitam a beleza das flores e de suas cores exóticas, amarelo como sol, roxo como manto e violeta como metileno, alguns percebem, outros só o rastro, como sempre, ficam muito perplexos neste mês, uns com receio, outros pelas lendas urbanas, que vezenquando apavoram o pessoal.

O Sul do Mundo, que vezenquando é centro, outras periferia, devido a coisas que ocorrem ou são realizadas pela palavra, mal colocada, recebe no bojo de sua terra, vermelha como sangue, que também escorre lentamente e faz a vida seguir. Penso que quando usar sua capacidade de influenciar faça sem desmerecer, afinal, o eco torna, e a palavra e ação mal colocada volta com a força de turbina que o universo imprime, presta muita atenção nisso, a palavra proferida é lâmina, que ao mesmo tempo defende, mas pode sim ferir mortalmente.

Durante os anos de convivência com a Siá Marica, minha vó, que dali vem o sangue da terra, e também bela parte do brilho do olho, encontrava toda semana, em horários diferentes, e sempre que estava, sentava junto ao fogo que crepitava, por vezes falava pra vó minha angústia e a sede de viver, ela pacientemente ouvia e, ao final, falava com voz solene, conselho certeiro, sem chance de erro, com um olhar singelo e com muita verdade na voz e na atitude, ela vivia o que pregava, destas coisas que podem passar tempo que não se esquece, talvez a vó fosse Flor de Ipê, mas com tal vitalidade que durou oitenta e oito, o certo é que as palavras que proferia eram puras e carregadas de força, o universo retornava e, sua casa, apesar de tantos problemas, tinha um clima sempre de paz, e sua fisionomia era da mais absoluta tranqüilidade. Fé é alicerce, fazer o bem é cimento. Se o que tiveres pra falar não for transformar a situação de forma favorável e benéfica, cala, porque o retorno vem, à bala.

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