A vitória derrotada
Sexta, 18 de Setembro de 2015

Foi uma semana histórica para o RS. Os servidores que protestavam contra três projetos que estavam na pauta de votação – previdência complementar e extinção da Fundergs e da Fepps – bloquearam as passagens da Assembleia Legislativa, impedindo a votação no Parlamento pela primeira vez na história. Uma das maiores demonstrações de força dos sindicatos de servidores estaduais também foi uma das mais frustradas. Se na terça-feira conseguiram paralisar todos os trabalhos, na quarta ficaram resignados a protestar detrás dos gradis que “protegiam” o Parlamento juntamente com agentes do BOE. Entraram apenas deputados, integrantes do Governo e servidores da casa.

Como um clube de futebol impedido de jogar em casa após torcedores invadirem o campo, a vitória conquistada na marra se transformou em dolorosa derrota 24h depois. Dos bastidores, parecia que daria certo o acordo feito entre os representantes dos sindicatos e os deputados para que a AL fosse liberada com a reabertura das negociações para retirada dos projetos mais polêmicos. Entretanto, os sindicatos não conseguiram conter os manifestantes. Instalou-se um clima de insegurança, e a restrição de entrada no Parlamento se justificou. É triste ver uma votação com galerias vazias, sem vaias, sem confronto na tribuna entre situação e oposição. Porém, os ânimos andam tão exaltados que facilitar o acesso poderia ser irresponsável.

Entendo os servidores. Estão p! da vida porque estão recebendo parceladamente num contexto de aumento de impostos, sem expectativa de reajuste para o ano que vem, e com o cumprimento do piso bastante distante. A grita é plenamente justificada e legítima. Acrescenta-se a falta de sensibilidade por parte do Governo, que coloca projetos com forte rejeição em pauta no mês que abriu com servidores recebendo só R$ 600. Contudo, realmente não entendi ainda o motivo pelo qual a base dos servidores demonizou o projeto de previdência complementar. Quantos professores que você, caro leitor, conhece que se aposentam ganhando mais de R$ 4,6 mil (equivalente ao teto do INSS)? Que eu saiba, há apenas alguns (boa parte dirigentes sindicais) que conseguem incorporar uma função gratificada. E só.

A previdência do Estado é reconhecidamente um grande problema, e eu duvido que o cidadão comum – que nunca vai conseguir se aposentar pelo teto do INSS – considere justo alguém se aposentar ganhando R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 30 mil pagos pelos cofres públicos. É verdade que esse projeto vai demorar pra ter efeito. Isto não faz dele menos necessário. E outra: eu, pelo menos, não vi na Praça da Matriz representantes de categorias que se aposentam com supersalários, o que faz parecer que as queixas das categorias com menores vencimentos serem única e exclusivamente de cunho político. Deixa de ser legítimo? Não. Porém pode perder força, sobretudo com a opinião pública, para quem manifestações mais fortes e ameaças não são atitudes “simpáticas”. Quando o negócio apertar mesmo para estes manifestantes – como no caso da Lei de Responsabilidade Fiscal Gaúcha, talvez o respaldo da sociedade não seja o mesmo.

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