Influência das línguas africanas no português brasileiro (parte 2)
Sexta, 11 de Novembro de 2016

Prezados amigos, em virtude das comemorações do dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, vamos seguir nesta coluna e também nas próximas a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Iniciamos indicando que as línguas africanas, marcadas pela ruptura de sua continuidade no espaço original, encontraram-se no Brasil distantes do convívio com suas variantes dialetais, dentro de um quadro heterogêneo em que os novos contatos linguísticos com o português, as línguas indígenas e outras ocorreram de forma diferenciada, nas diferentes épocas e nos diferentes ambientes (rural e urbano).

Assim, ao iniciar-se o tráfico da África para o Brasil, na primeira metade do século XVI, observou-se a confluência de línguas negro-africanas com o português europeu antigo. As consequências mais diretas desse contato linguístico e cultural foram a alteração da língua portuguesa na colônia sul-americana e a subsequente participação de falantes africanos na construção da modalidade da língua e da cultura aqui constituída. Neste sentido, explicitar a forte interferência do componente africano é ter em conta a participação do negro-africano como personagem falante no desenrolar dos acontecimentos e procurar entender os fatos relevantes de ordem socioeconômica e de natureza linguística que, ao longo de quatro séculos consecutivos, favoreceram a interferência de línguas africanas na língua portuguesa, brasileira, que se fez sentir em todos os setores: léxico, semântico, prosódico, sintático e, de maneira rápida e profunda, na língua falada.

Isto porque a densidade populacional estimada entre quatro a cinco milhões de africanos transplantados para substituir o trabalho escravo ameríndio no Brasil originou, durante três séculos seguidos, um contingente de negros e afrodescendentes superior ao número de portugueses e outros europeus, de acordo com as informações históricas disponíveis e as estimativas demográficas de época, a exemplo do censo de 1823, que apontava 75% de negros e mestiços no total da população brasileira. Supõe-se então que essa vantagem, em termos de superioridade numérica, no confronto das relações de trabalho e na convivência diária, teria também contribuído para a constituição daquela “língua geral”, que foi usada no Brasil até meados do século 18 por bandeirantes e catequistas e, segundo Câmara Jr. (1954, p.293), “não deve ser confundida com uma suposta persistência dos falares tupis na sociedade europeia do meio americano”.

Ao mesmo tempo, já se formavam os falares afro-brasileiros das senzalas, das plantações, dos quilombos, das minas e, mais tarde, de alguns núcleos da costa atlântica até o seu estabelecimento como línguas rituais, a chamada “língua de santo” na Bahia, dispondo de um vocabulário menos rico, sob a forma de falares especiais de comunidades negras isoladas, como as que vivem no Cafundó, em São Paulo, e em Tabatinga, Minas Gerais.

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