Influência das línguas africanas no português brasileiro (parte 3)
Sexta, 25 de Novembro de 2016

Prezados amigos, vamos seguir nesta coluna e também nas próximas a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Iniciamos indicando que o isolamento social e territorial em que foi mantida a colônia pelo monopólio do comércio externo brasileiro, feito por Portugal até 1808, condicionou um ambiente de vida de aspecto conservador e de tendência niveladora, mais aberto à aceitação de aportes culturais mútuos e de interesses comuns. Aqui, destacam-se a atuação socializadora da mulher negra no seio da família colonial, o processo de socialização linguística exercido pelos negros ladinos e a língua de santo.

Denominavam-se por “ladinos”, aqueles que logo cedo aprendiam a falar rudimentos de português e podiam participar de duas comunidades sociolinguisticamente diferenciadas: a casa-grande e a senzala. Na condição de bilíngues, atuavam como uma espécie de leva-e-traz, o que deu motivo ao ditado popular “diante de ladino, melhor ficar calado”, desde quando podiam falar a um número maior de ouvintes e influenciá-los, resultando daí por adaptarem uma língua a outra e estimularem a difusão de certos fenômenos linguísticos entre os não bilíngues.

Já a mulher negra, na função de “mãe-preta”, teve oportunidade de interagir e exercer sua influência naquele ambiente doméstico e conservador, incorporando-se à vida cotidiana do colonizador, fazendo parte de situações realmente vividas e interferindo no comportamento da criança através de seu processo de socialização linguística e de determinados mecanismos de natureza psicossocial e dinâmica. Entre eles, os elementos de sua dieta nativa, com comidas temperadas com azeite de dendê, por exemplo, e componentes simbólicos do seu universo cultural e emocional que ela introduziu em contos populares e cantigas de ninar.

É igualmente notável o desempenho sociolinguístico de uma geração de lideranças afrorreligiosas que sobreviveu a toda sorte de perseguições e é detentora de uma linguagem litúrgica de base africana, cujo conhecimento é veículo de integração e ascensão na hierarquia sociorreligiosa do grupo, porque nela se acha guardada a noção maior de segredo dos cultos. Essa língua de santo é a fonte atual dos aportes lexicais africanos no português do Brasil, e a música popular brasileira é, hoje, o seu principal meio de divulgação, em razão de muitos dos seus compositores serem membros de comunidades afrorreligiosas, como o foi Vinicius de Moraes e, atualmente, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros de igual grandeza, entre os quais estão os compositores de blocos afros e afoxés da Bahia. Exemplo relevante é a palavra axé (de étimo fon/iorubá), os fundamentos sagrados de cada terreiro, sua força mágica, usada como termo votivo equivalente a “assim seja”, da liturgia cristã, que terminou incorporada ao português do Brasil para denominar um estilo de música de sucesso internacional, produzido na Bahia e conhecido por todos como “axé music”.

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