Influência das línguas africanas no português brasileiro – IV
Sexta, 09 de Dezembro de 2016

Prezados amigos, dada a importância da contribuição dos povos africanos na formação cultural brasileira e tendo a língua como a expressão maior dessa contribuição, vamos seguir nesta coluna e também nas próximas a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Aqui, destacamos a atuação socializadora dos crioulos e mestiços.

Crioulos e mestiços eram os nomes dos afrodescendentes nascidos no Brasil, que falavam o português como primeira língua, e, por conseguinte, desligados de sentimentos nativistas em relação à África, aceitando, portanto, com maior facilidade a adoção de padrões europeus então vigentes. Pode-se comprovar isso ainda hoje verificando, por exemplo, as vestes e os paramentos sagrados das cerimonias festivas do modelo urbano do candomblé da Bahia, com saias rodadas, tecidos rendados, espadas, coroas, capacetes, entre outros, com inspiração colonial europeia. Era o início do processo de urbanização do país impulsionado pela instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro e a abertura dos portos no ano de 1808, o que exigia, consequentemente, a fixação da mão de obra escrava recém-trazida da África nas cidades, período em que a maioria da população brasileira era formada por mestiços e crioulos.

É de salientar neste quadro que, com a extinção do tráfico transatlântico para o Brasil em 1856, até a abolição da escravatura no país no ano de 1888, o tráfico interno foi intensificado e, assim, negros escravizados nas plantações do nordeste foram levados para todo o país. Essa situação, e dada a amplitude geográfica alcançada por essa distribuição humana, contribuiu para que o elemento negro seja uma presença constante em todo o país durante o período colonial e escravagista. Ainda hoje ocorre a migração de afrodescendentes para todo o Brasil, sobretudo às regiões industriais e também comerciais, principalmente do eixo Centro-Sul, em busca de melhores condições de vida.

Nesse processo de influências recíprocas e em resistência a ele, o negro-africano conseguiu impor, de forma mais ou menos sublimar, alguns dos mais significativos valores e traços expressivos do seu patrimônio cultural e linguístico à sociedade nacional em construção e à língua portuguesa do Brasil, tendo cada grupo linguístico sua influência própria. Na próxima coluna, iremos tratar dessas influências de cada um dos grupos linguísticos africanos, nomeadamente os bantos e os oeste-africanos, destacando a presença de cada grupo no solo brasileiro e a sua contribuição específica para a construção da atual língua portuguesa falada aqui no Brasil.

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