Influência das línguas africanas no português brasileiro - V
Sexta, 23 de Dezembro de 2016

Prezados amigos, como já informamos nas colunas anteriores, dada a importância da contribuição dos povos africanos na formação cultural brasileira e tendo a língua como a expressão maior dessa contribuição, vamos seguir nesta coluna e também nas próximas a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Aqui, destacamos a influência do grupo linguístico Banto.

Mas antes é preciso destacar que nem todo o vocabulário que existe no português do Brasil, com resíduo africano, foi incorporado por influência da presença dos negros escravos trazidos para cá, pois, alguns vocábulos foram trazidos pelos próprios portugueses, já que em Portugal também se encontrava a presença de negros africanos. É o caso, por exemplo, da palavra inhame.

Entretanto, o grupo linguístico Banto, em razão de ser a mais antiga a vir para cá, e, devido entre outros à densidade demográfica e à amplitude geográfica alcançada pela sua distribuição humana no território brasileiro, a sua influência é mais profunda e notória, tanto que, em 1697, foi publicada em Lisboa a mais antiga gramática de uma língua banto, com o título de “A Arte da língua de Angola”, escrita pelo padre Pedro Dias na Bahia, para uso dos jesuítas, com o intuito de facilitar a doutrinação dos “25.000 etíopes” que se encontravam em Salvador e que não falavam o português (SILVA NETO, 1963). É de salientar que este grupo linguístico engloba inúmeras línguas e inclui cerca de três mil dialetos, falados por povos espalhados ao longo de 2/3 da África ao Sul do Saara.

Na época colonial, os aportes bantos estavam sobretudo associados ao regime de escravidão, destacando-se expressões como: senzala, mucama, bangue, todos integrados ao sistema linguístico do português, e até formando derivados portugueses da raiz banto, como esmolambado, sambista, xingamento, mangação, moleque, caçula, demonstrando a sua antiguidade. Verifica-se em alguns casos que a palavra banto chega a substituir a palavra de sentido equivalente em português: corcunda por giba, moringa por bilha, molambo por trapo, xingar por insultar, cochilar por dormitar, caçula por benjamim, cachaça por aguardente, dendê por óleo de palma, bunda por nádegas, marimbondo por vespa, carimbo por sinete, entre tantos outros.

Vale destacar a palavra caçula, conhecida por todos os brasileiros para dizer “filho mais jovem”, demonstrando a influência sociolinguística da mulher negra enquanto “mãe preta” na intimidade da família colonial. Enfim, muitos estudiosos salientam a semelhança da estrutura da língua banta com o português, devido, entre outros, ao uso de muitas vogais e sílabas nasais abertas, como é o caso por exemplo dos sons da palavra “moleque” e de “gangorra”, o que facilitou a integração entre o banto e o português. Se nos orgulhamos de falar “cantando”, devemos agradecer ao gosto das línguas banto pelas vogais. Vem da mesma fonte africana o costume de abolir os plurais, como em “as criança” e “os menino”.

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