Influência das línguas africanas no português brasileiro – VII
Sexta, 20 de Janeiro de 2017

Prezados amigos, vamos seguir nesta coluna a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Aqui, destacamos algumas considerações importantes dessa influência.

Enfim, como consequência de quatro séculos de contato direto e de forma permanente entre falantes de línguas africanas com a língua de Camões brasileira, pode-se observar que, o português do Brasil, naquilo que ele se afastou do português de Portugal, tirando a matriz indígena que teve uma influência menos extensa e mais localizada, é, em grande parte, o resultado de um movimento implícito de africanização do português e ao mesmo tempo de aportuguesamento das línguas africanas aqui faladas.

Vale neste sentido destacar que essa interação linguística foi possível graças aos fatores de ordem sócio-histórica e cultural, facilitada de certa forma pela proximidade relativa da estrutura linguística do português europeu antigo e regional com as línguas africanas que o mestiçaram. Pode-se destacar entre essas semelhanças, o sistema de sete vogais orais – a, e, é, i, o, ê, u, e a estrutura silábica ideal – Consoante Vogal. Consoante Vogal, em que há a conservação do centro vocálico de cada sílaba, mesmo átona.

Os estudiosos do assunto salientam que esse tipo de aproximação casual pode ser o que possibilitou a continuidade do tipo prosódico de base vocálica do português antigo na modalidade brasileira, distanciando-a portanto, do português de Portugal de pronúncia muito consonantal. É o caso, por exemplo, das pronúncias brasileiras, 'pi.neu, a.di.vo.ga.do e ri.ti.mo’ em substituição de pneu, ad.vo.ga.do e rit.mo, da pronúncia portuguesa de Portugal.

Como já foi salientado nas colunas anteriores, os africanos falantes das línguas banto, pela antiguidade, volume populacional e amplitude territorial alcançada pela sua presença no Brasil colônia, adquiriu o português como segunda língua, tornando-se o principal agente transformador da língua portuguesa em sua modalidade brasileira e seu difusor pelo território brasileiro sob regime colonial e escravista. Sabe-se que ainda hoje, inúmeros dialetos de base banto são falados como línguas especiais por comunidades negras da zona rural, remanescentes de antigos quilombos. Não menos importante e ao encontro dessa matriz já estabelecida, assentaram-se os aportes do ewe-fon e do iorubá, menos extensos e mais localizados, embora igualmente significativos para o processo de síntese pluricultural brasileira, sobretudo no domínio da religião.

Se considerarmos o português do Brasil como um conceito coletivo que se pode desdobrar em níveis, de acordo com as ocasiões, as regiões e as classes sociais, os aportes africanos estão mais ou menos completamente integrados ao sistema linguístico do português brasileiro, segundo os níveis de linguagem socioculturais, enquanto o português de Portugal foi ele próprio africanizado, de certa forma em razão de uma longa convivência.

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