Influência das línguas africanas no português brasileiro – VIII
Sexta, 03 de Fevereiro de 2017

Prezados amigos, vamos seguir nesta coluna a tratar sobre a influência das línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Aqui, destacamos algumas interferências no vocábulo, morfologia, sintaxe e pronúncia ocorridas na Língua Portuguesa do Brasil devido a esta influência.

Em termos de interferência no vocabulário podemos destacar os aportes lexicais de palavras africanas que foram apropriadas pela língua portuguesa em diversas áreas culturais, conservando a forma e o significado originais: Simples: samba, xingar, muamba, tanga, sunga, jiló, maxixe, candomblé, umbanda, berimbau, maracutaia, forró, capanga, banguela, mangar, cachaça, cachimbo, fubá, gogó, agogô, mocotó, cuíca; Compostos: lenga-lenga, Ganga Zumba, Axé, Opo Afonjá.

Palavras do português que tomaram um sentido especial à luz da influência por tradução direta de uma palavra africana: mãe-de-santo (ialorixá), dois-dois (ibêji), despacho (ebó), terreiro (casa de candomblé); e, em substituição a uma palavra africana considerada como tabu, a exemplo de “O Velho”, por Omulu, e “flor do Velho”, por pipoca. Palavras compostas de um elemento africano e um ou mais elementos do português: bunda-mole, espada-de-ogum, limo-da-costa, pó-de-pemba, Cemitério da Cacuia, cafundó de Judas. Nessa categoria estão os derivados nominais em português, a exemplo de molecote, molecagem, xodozento, cachimbada, descachimbada, forrozeiro, sambista, encafifado, capangada, caçulinha, dengoso, bagunceiro.

No que diz respeito à interferência na morfologia e sintaxe é preciso indicar que não há de ser por mero acaso ou seguindo apenas à deriva interna da própria língua portuguesa que, na linguagem popular e descontraída do falante brasileiro, a tendência é assinalar o plural dos substantivos apenas pelos artigos que sempre os antecedem, a exemplo de se dizer *as casa “, *os menino”, *os livro, segundo o padrão do plural dos nomes, feito por meio de prefixos nas línguas bantos. As línguas africanas em geral desconhecem a marca de gênero, como em português padrão, a/o (menina x menino), o que pode contribuir para explicar melhor a instabilidade de gênero dos nomes (*minha senhor) que por vezes é observada no cancioneiro português antigo e também ocorre na linguagem popular.

A interferência na fonologia e na pronúncia pode ser notada quando o falante brasileiro omite as consoantes finais das palavras ou as transforma em vogais, *falá, *dizê, *Brasiu, coincidindo com a estrutura silábica das palavras em banto e em iorubá, que nunca terminam em consoante. De acordo com a estrutura silábica dessas línguas, onde não existem encontros consonantais, a tendência de desfazer esse tipo de encontro, seja na mesma sílaba ou em sílabas contíguas, pela intromissão de uma vogal entre elas, que termina por produzir outra sílaba, a exemplo de *saravá para salvar, *fulô para flor.

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