A relação entre língua, cultura e sociedade (parte 2)
Sexta, 17 de Março de 2017

Prezados leitores, na coluna desta semana vamos seguir tratando da relação entre língua, cultura e sociedade. Vamos tratar, especificamente, de algumas reflexões sobre as definições conceituais de cultura, para entendermos melhor a sua interpretação.

Assim, observando os vários tratados relacionados à cultura e seus conceitos, encontramos que, até para antropólogos, sociólogos e outros estudiosos das ciências sócias humanas, é muito difícil conceituar cultura, chegando a ser uma árdua tarefa dada à complexidade de sua história, a qual dificulta consideravelmente o acesso ao seu significado. Para o efeito, Vivian Schelling (1991) sugere que um dos caminhos para se chegar a algum resultado é seguir, atentamente, a história da cultura, desde que se conheçam as diversas experiências vinculadas à formação dessa cultura como um todo.
Neste sentido, para compreendermos a inter-relação e a interdependência entre língua, cultura e sociedade, que é o assunto que estamos a tratar nesta coluna, torna-se necessário a compreensão de algumas reflexões sobre os conceitos de língua e cultura. Isto porque a cultura, de acordo com Morin (1991, p. 17), seria uma característica da sociedade humana e, por isso mesmo, ela é organizada/organizadora via ou veículo cognitivo, que é a linguagem, a partir do capital cognitivo coletivo dos conhecimentos adquiridos, das aptidões aprendidas, das experiências vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma sociedade.

Isso significa que, na cultura, manifestam-se representações coletivas, “imaginário coletivo”. E, dispondo do seu capital cognitivo, a cultura institui as regras /normas que organizam a sociedade, dirigem os comportamentos individuais. Consequentemente, as regras/normas culturais geram processos sociais e regenera-se globalmente a complexidade social adquirida por essa mesma cultura. De acordo com Morin (1975, p. 170), o indivíduo, ao nascer, começa a receber a herança cultural que lhe vem garantir a formação, orientação e desenvolvimento como ser social. A herança cultural, não apenas, vai sobrepor-se à hereditariedade genética, mas também vai combinar-se com esta. O autor (1986, p. 21) complementa esta concepção ao afirmar que o conhecimento é simultaneamente biológico, cerebral, espiritual, lógica, linguística, cultural, social, histórico, e não pode ser desvinculado da vida humana e da relação social.

Vale salientar que, ao se considerar a cultura uma construção histórica, seja como concepção ou dimensão do processo social, não se deve entendê-la como algo natural nem como uma decorrência de leis físicas e biológicas, mas como um processo coletivo de uma sociedade. Neste sentido, Cuche (2002) cita Herder, que afirma: “[...] na realidade cada povo através da sua cultura própria tem destino específico a realizar, pois cada cultura expõe a sua maneira um aspecto de humanidade [...]”.
 

Comentários