A AMIZADE VERDADEIRA (II)
Sexta, 18 de Agosto de 2017

Prezados leitores, na coluna desta semana, vou prosseguir trazendo os escritos do meu amigo e colega da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, professor Gilmar de Azevedo, em relação à amizade verdadeira.

Na sequência das definições de amizade feitas por Aristóteles e referenciadas pelo professor Gilmar, destaco as amizades centradas no prazer e na bondade. De acordo com o professor, a amizade baseada no prazer é semelhante à centrada na utilidade. Aqui, busca-se o prazer recíproco no convívio entre amigos. A amizade é estável enquanto persistir este elo prazeroso. Ou seja, ama-se e convive-se em função do prazeroso, do agradável. Esta tipo de amizade, de acordo com Aristóteles, é o caso, por exemplo, da amizade existente entre os jovens que vivem buscando emoções e perseguem acima de tudo o agradável. Mas os prazeres dos jovens mudam conforme a idade e as questões circunstanciais. Por isto, eles se tornam amigos e deixam de ser amigos tão rapidamente. A amizade muda conforme o objeto que lhes é agradável.

A amizade, baseada na bondade, é considerada por Aristóteles como completa e perfeita, pois visa somente ao bem para o amigo e possui uma estrutura de durabilidade. O fim proposto é o bem em si mesmo e por si mesmo. O homem bom, justo, querido, torna-se um bem para o amigo. Esta bondade é princípio e fonte de amizade. Ama-se o outro amigo por aquilo que ele é. É a verdadeira forma de amizade porque o fim é em si mesmo centrado no valor do homem e não como meio para obter vantagens (riquezas e honras).
Por isso, diz-se que o amigo é um outro “eu”. Ele é possibilidade de autoconhecimento. Conhecemo-nos olhando para o outro. Devido a nossa finitude existencial, o homem procura atingir a perfeição moral no espelhamento do outro. Querer bem ao amigo é agir em consonância com o princípio da benevolência. E para atingir este grau de certa forma padrão de amizade, requer-se tempo e familiaridade. Porém, a amizade entre os bons não é muito frequente porque as pessoas que a praticam são raras.

Em suma, Aristóteles considera a amizade necessária à felicidade. Ela entra no catálogo dos bens superiores. De certo modo, a felicidade verdadeira depende da amizade. Ao mesmo tempo, a natureza do homem é ser social e político, tendo necessidade dos outros para compartilhar seus bens espirituais, ou seja, ser virtuoso e feliz. Por isso, o homem feliz tem necessidade de amigos. Ninguém é bom somente para si mesmo. Precisa-se dos amigos tanto nos momentos de prosperidade como nos de dificuldades. Isolado não é possível ser sujeito ético.

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