Dos brindes aos discursos
Sexta, 06 de Novembro de 2015

Não é novidade que as eleições – ao menos no Brasil – são um grande negócio. Movem uma grande cadeia produtiva. Empregam. Criam oportunidade de negócios. Alguns meses antes de um pleito, é possível ver nos corredores dos prédios públicos vendedores oferecendo serviços gráficos. As madeireiras já ganharam bastante, vendendo e montando cavaletes. Até o de brindes, na época em que era liberada a distribuição de camisetas, bonés, bandeiras, chaveiros, canetas, lixas de unha, canecas e até estojos de costura. Tudo já foi usado como mídia. E distribuir tudo isso também sempre gerou renda extra a algumas famílias. O setor alimentício também, com os almoços e jantares. Até o artístico, com showmícios.

Não importa a época. Para quem sabe aproveitar, o período eleitoral é uma época semelhante às semanas que antecedem Natal, Páscoa, Dia das Crianças. Já aqueceu o mercado de dentaduras, de havaianas, e colocou em dia contas de inadimplentes. A pobreza (econômica, educacional e moral) deste país tradicionalmente faz de um pleito uma confraternização entre quem tem mais (e quer o voto) e quem tem menos (que qualquer “compra” um voto). Acho muito favoráveis as restrições a essas práticas, embora se tivéssemos um mínimo de cultura política, nada disso influenciaria votos.

Entretanto, os negócios vão muito além. Cada eleição gera emprego e renda ao longo dos quatro anos. Pesquisas, marketing, palestras sobre marketing. Eu não tenho nada contra isto, afinal, também faz parte do meu trabalho. Porém, vejo aqui uma linha muito tênue: de um lado, informar verdadeiramente o que está sendo feito e entender os almejos da população; do outro, agir simpaticamente, populisticamente, buscar a frase certa e o sorriso perfeito. Uma coisa é ter convicções próprias, trabalhar por isto, mesmo que as soluções sejam, num primeiro momento, antipáticas. Outra coisa bem diferente é montar a própria plataforma a partir do que é mais palatável.

A impressão que tenho é de que, principalmente na última década, os políticos estão com cada vez menos identidade própria. A profissionalização do conteúdo (e não mais das mídias) padronizaram candidatos. A maioria não tem discurso suficiente para fundamentar por três minutos qualquer ideia. A ideia de falar de forma mais fácil para facilitar a compreensão não tem se limitado às palavras mais usadas, mas também às ideias, ao senso comum.

 

O pior de tudo é que inevitavelmente este “serviço” chegou as redes. Hoje temos especialistas em fazer qualquer coisa que se possa imaginar pelas redes sociais. De estudos de dados até fabricar vários falsos perfis que disseminam a discórdia. Diante das restrições de propaganda no mundo real, o mercado virtual é que vai lucrar cada vez mais e será bem difícil calcular quanto estará sendo gasto nisto, ou identificar quem são os verdadeiros responsáveis pela produção e disseminação de um conteúdo majoritariamente pobre de ideias, populista e difamatório com embalagem de humor. Corremos o risco de transformar o Tiririca em um candidato de vanguarda. Aí vamos ver que brindes foram problemas bem menores.

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