Racismo Inclusivo
Sexta, 20 de Novembro de 2015

Hoje, dia 20, comemora-se o dia da Consciência Negra. Não sei exatamente se o verbo a ser empregado é “comemorar”. Talvez o mais indicado seja lembrar, para não esquecer toda a história de escravidão, exclusão, injustiças, etc. que acontecem até hoje. Dizer que não existe racismo hoje em dia é uma grande mentira. Talvez menos escancarado, mas não menos ruim.

Lendo o recomendadíssimo texto “Futebol a cores, uma história de racismo no Rio Grande do Sul”, uma reportagem escrita por Caetano Manenti, deparei-me com a seguinte expressão: racismo inclusivo. Refere-se à distinção entre o racismo escancarado que acontecia no Grêmio, com a proibição no próprio estatuto da presença de negros na equipe, e o que acontecia no Internacional, que passou a aceitar jogadores negros para ganhar campeonatos (apenas o Gauchão de 1927 foi conquistado pelo Colorado sem atletas negros), que passou a aceitar a presença de negros nas arquibancadas, mas que tinha barreiras invisíveis para sua participação no quadro social, na direção, nas cadeiras do estádio.

No dia a dia é praticado esse racismo inclusivo. Os negros podem trabalhar nas empresas, mas dificilmente vão conseguir um dos mais altos cargos ou salários (se pensarmos bem, isto também pode ser chamado de machismo inclusivo, homofobia inclusiva, etc). Assim como os negros foram aceitos no futebol porque os clubes precisavam deles para ganhar, e não por um desejo genuíno de integração racial, é esse o meio que a sociedade “branca” achou para conviver com eles. Podem lavar o meu carro, mas não podem casar com minha filha. Limpar nossos prédios públicos, mas dificilmente ocupar uma posição de destaque. Ocupar o chão da fábrica, mas não dirigir o negócio. Podem carregar caixas, mas não tomar decisões.

O RS é tido como um dos Estados mais racistas do Brasil. E é, pois pouco se aceita influências da cultura afro, apesar de sermos percentualmente o Estado que mais tem adeptos da umbanda e do candomblé. Contudo, se vê terreiros em regiões centrais? Se os haitianos que desembarcam por aqui fossem brancos teriam as mesmas restrições? O RS se diz como o primeiro a falar em abolição da escravatura, que este seria um ideal dos heróis farroupilhas. Entretanto, a história dá fortes indícios que esta foi uma desculpa para ter os escravos nas fileiras, e que finalizada a guerra, eles foram entregues para serem chacinados pelos imperiais. O RS elegeu mais uma Miss Brasil. Outra branca. Não temos negras bonitas por aqui?

Claro que temos exemplos de negros que têm sucesso fora do esporte, do carnaval ou da música. Mas são poucos. E é triste ver como se acham desculpas para contestar a implementação de políticas afirmativas. Historicamente, os negros não tiveram acesso a grandes chances. A regra foi contentar-se com o que sobrava, com o que não interessava à elite branca. Não dá nem para comemorar essa evolução, já que é minúscula. O que podemos fazer é não esquecer, para podermos ter discernimento suficiente para não fazer parte deste racismo inclusivo.

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