Entre traidores e mártires
Sexta, 27 de Novembro de 2015

Que semana para a política! Aqui, o primeiro deputado cassado em 180 anos de Parlamento gaúcho. Lá em Brasília, um senador, líder de governo, numa prisão também inédita. Pior é pensar que tudo está acontecendo não porque a política está mais corrupta, mas porque as instituições (Polícia Federal, Ministério Público, Judiciário) estão mais maduras e, por isso, mais sólidas.

A “ousadia” das investigações (entre aspas porque é algo relativamente novo no sentido de atacar os mais graúdos) coloca nos jornais roteiros dignos de filmes de Hollywood. Imagina você um filme em que o filho de um homem acusado de corrupção grava um senador que oferece ajuda a fim de salvar a própria pele, envolvendo o nome do vice-presidente numa ação de pressão sobre ministros do Supremo Tribunal Federal e, de lambuja, apresenta um esquema para a fuga do país! Seria um filmaço.

Usei a palavra traição, que aprendemos desde criança que é algo que não se deve fazer. Já disse em outra coluna sobre delação premiada que não me importo, desde que seja para moralizar um pouco o ambiente em que se decide o futuro do país e o uso do dinheiro público. Até porque, sem a “traição” não teríamos 21 fases da Operação Lava-Jato. Nem as denúncias do magoado ex-chefe de gabinete de Basegio, que resultaram na cassação do deputado; nem as turbulências do governo Yeda (lembra? O vice-governador Paulo Feijó gravou um diálogo com o então chefe da Casa Civil, Cezar Busatto, que provocou uma crise até hoje sem precedentes na política gaúcha).

A tecnologia ajudou a mudar um pouco a política. Seja nas investigações ou na facilidade de ter sempre um gravador ou câmera à mão, ajuda a formar provas entre quem não quer ser passado para trás. O fato é que isso nos dá garantia de mais “emoções”. Só espero que a palavra feia “traição” não seja substituída por uma mais bonita, “mártir”. No caso da política, melhor alguém que traia para não cair sozinho do que quem tem a “nobreza” de assumir toda a culpa para esconder esquemas criminosos.

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