Agora é golpe
Sexta, 11 de Dezembro de 2015

Eu era contra o uso da palavra golpe para descrever a tentativa de impeachment da presidente Dilma. De certa forma, ainda sou. Se o impeachment é previsto na legislação brasileira (que é democrática), ele pode ser usado. É diferente de uma intervenção militar. Isto sim é golpe. O Impeachment foi pedido pelo PT em todos os governos pós-redemocratização antes de Lula. Faz parte do jogo, é até uma forma de fazer com que quem administra o país ande na linha. Entretanto, após a cartinha do vice Temer remetida à presidente, eu concordo que há sim um golpe, e todo ele orquestrado pelo PMDB.

É incrível (no sentido que não dá para crer) como age o PMDB. Eternos governistas, haviam indicado o vice de José Serra no pleito que elegeu Lula pela primeira vez. Logo em seguida, já estavam ao lado do PT. Enquanto tudo ia bem na economia brasileira, surfou a crista da onda da popularidade do ex-presidente. Na eleição de Dilma, emplacou o vice. A partir daí, ajudou a enfraquecer o governo, para matar a fome por cargos e sempre querendo mais ministérios. Quanto pior, melhor para agradar todas as alas da sigla. Culminando em um presidente da Câmara desvairado, louco para derrubar o governo para desviar o foco das várias acusações contra si; um presidente do Senado disposto (ao menos aparentemente) a manter Dilma na presidência; um vice abrindo fogo propositalmente (há alguma dúvida que a cartinha foi vazada propositalmente?).

Verifica-se o papel importante na história de resistência durante a Ditadura Militar, quando o então MDB abrigou em suas fileiras os descontentes com o regime imposto, a qual foi importante para a redemocratização e também para a articulação que elegeu Tancredo e evitasse que Maluf fosse escolhido presidente. Depois, foi o embrião de vários outros partidos que foram se criando, como o PSDB, o PDT, o PSB, e até o PT. Talvez por isso seja um dos partidos com menor unidade ideológica entre tantos, já que foi criado a partir de um conjunto de descontentes com uma situação específica.

Semana passada eu disse que, se era para Temer ficar no poder, que continuasse a Dilma. Não consigo admitir que o poder supremo do país caia nas mãos de quem nunca se esforçou para alcançá-lo no voto. Embora entenda que os argumentos usados para pedir o impeachment sejam, como qualificou o ex-senador Pedro Simon, de “fracos”, também é verdade que o governo – que já demonstrava dificuldades enormes para funcionar - está muito amarrado por Temer e por Cunha. Se será difícil aturar mais três anos de governo Dilma, muito pior será aturar este tempo todo com o comando de um cara que distribuirá cargos para quem pedir, com o apoio de uma Câmara liderada por um sujeito cujas práticas são repugnantes.

O que acontece agora? Não sei. Porque a impressão que fica é que o buraco não tem fim. Eu prefiro acreditar que em algum momento um grupo de políticos, percebendo que a kombi Brasil está sem freios e descendo por um desfiladeiro, gente com um pingo de consciência, se reúna a fim de promover a estabilidade institucional deste país. E que o Supremo Tribunal Federal faça sua parte para obter o êxito de manobras como as patrocinadas por Cunha.

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