A visita do Bolsonaro
Sexta, 29 de Janeiro de 2016

O acontecimento da semana na capital gaúcha foi a presença do controverso deputado federal Jair Bolsonaro. É filiado ao PP, mas já anuncia que trocará a sigla pelo PSC assim que abrir a janela, porque diz que seu objetivo é concorrer à presidência da República. Obviamente, Bolsonaro conseguiu carregar um grande número de simpatizantes consigo. E de antipatizantes também.

Bolsonaro se tornou uma celebridade de direita a partir de discursos sem filtros, nos quais, entre outras coisas, esculhamba direitos humanos, direitos homoafetivos e em que defende que mulheres devem receber menos do que homens no mercado de trabalho porque “engravidam”. Suas frases bombásticas causam repugnação entre os mais liberais e admiração entre os mais conservadores. Precisava de bola de cristal para prever que teríamos confusão?

O deputado carioca talvez seja a figura mais icônica de um momento político em que grande parcela da sociedade brasileira redescobriu o “direitismo”. Pessoas – em geral mais velhas – para quem falta de segurança se resolve matando bandidos, que homoafetividade se resolve com Bíblia e “cura gay”, para quem políticas sociais são desperdício de dinheiro.

Não vamos isentar o lado extremo-oposto, que acha que a defesa por mais igualdade, melhor distribuição de renda, passa pela “luta”. É um povo peculiar (do qual já fiz parte, nos primeiros semestres de faculdade) que ainda fala em ditadura militar em quase todas as frases e para quem o povo tem que tomar o poder pela força. Que acha legítimo invasão de terras, a ação de black blocs ao destruir os patrimônios públicos e privados, queimar ônibus para impedir aumento de passagens, agredir figuras como Bolsonaro e que denuncia a repressão toda vez que a Brigada Militar precisa intervir.

Particularmente, eu não tenho respeito nenhum pelas posições de Bolsonaro. Tenho uma tendência muito mais próxima a quem defende os direitos humanos, as cotas, as bolsas, do que àqueles que pedem a intervenção do exército. Entretanto, não me sinto representado por nenhuma das extremas – direita ou esquerda. Se discursos como o do deputado carioca causam ânsia, também me irrita profundamente quem não sabe fazer o contraponto de outra forma que não seja através da violência. É esse enfrentamento irracional que elege deputados com discursos cujo conteúdo não contenha nada além do ódio. Bolsonaro é o deputado mais votado do Rio de Janeiro porque encontrou um inimigo real no discurso. A consequência disso será a eleição de mais radicais de esquerda, que se seguirá pela eleição de mais radicais de direita, num círculo vicioso sem fim.

Pessoas de extrema “direita” ou “esquerda”, muito antes de rever os conceitos sobre política, precisam rever seus métodos coercitivos para expressar o que almejam. Em suma, saber lidar com o "diferente". A impressão que fica é de que todos estão apegados a um passado que já deveria ter sido colocado abaixo junto com o Muro de Berlim, e esquecem que presente e futuro podem ser construídos com negociação, debate de ideias, participação ativa e não por ódio.

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