Sobre "As dinastias da Câmara"
Sexta, 05 de Fevereiro de 2016

A Agência Pública, no último dia 3, publicou o artigo do jornalista Étore Medeiros intitulado “As Dinastias da Câmara”. O subtítulo aponta que “quase a metade dos deputados são herdeiros de familiares cujo poder político, em alguns casos, remonta ao período colonial”. Vou apresentar alguns dados do artigo e alguns apontamentos feitos pelo autor.

Atualmente, 49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham pais, avôs, mães, primos, irmãos ou cônjuges com atuação política, o mais alto dos índices dos últimos quatro pleitos. No Rio Grande do Norte, os oito eleitos tem esta origem. Na região Sul, o índice é o mais baixo, 31%, ante 63% do Nordeste e 52% do Norte. O número é maior entre os políticos mais jovens: 85 daqueles com menos de 35 anos dos que foram eleitos tem em seu sangue o “dna da política”. Os dados apontam também que a maior parte das oligarquias políticas tem origem em localidades menores, e que não se limitam aos cargos do Congresso Nacional.

O fenômeno não está ligado a um partido: aumentou consideravelmente tanto naquilo que se chama de direita quanto de esquerda. Contudo, é um fenômeno que sempre houve. O autor cita, inclusive, o exemplo do deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), no décimo mandato, que é descendente direto de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), personagem que estudamos nos livros de História pela participação na Independência do Brasil.

Medeiros apresenta considerações feitas pelo cientista político e sociólogo Ricardo Costa Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para quem os elos de parentesco “são um fenômeno social e político do atraso” e estão intimamente ligados ao conservadorismo. Isto porque os políticos não herdam apenas o capital político, mas também “a visão de mundo e as pautas conservadoras. Assim, temos jovens que defendem o que os avôs já defendiam”.

A questão aqui não é se o caciquismo político é bom ou não. Afinal, se não apresentassem um mínimo de benefícios para os eleitores, não teriam essa hegemonia. Também não se trata de condenar esta continuidade, afinal, quantos médicos que têm filhos médicos, advogados com filhos formados em Direito, etc (eu mesmo tenho certeza que escolhi o jornalismo como uma mescla das profissões dos meus pais). O que ocorre é que esta tradição é apontada como um dos fatores que inibem o aparecimento de novas caras na política. Com um sistema eleitoral que ainda privilegia – e muito! - aqueles com mais recursos para aplicar nas campanhas, quem já parte de um capital político larga alguns quilômetros na frente. E isto explica também o porquê deste sistema político receber intervenções apenas paliativas, sem nunca mexer definitivamente com a estrutura para permitir que novas lideranças sejam protagonistas. O ponto central, ao ler o artigo, é que parece um ciclo sem fim, já que atende os planos de todo o espectro político, da direita para a esquerda.
 

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