O saneamento e as campanhas
Sexta, 12 de Fevereiro de 2016

Eu gosto muito quando a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil promove Campanhas da Fraternidade com temáticas ecumênicas. Como se fosse uma redação de vestibular, neste ano a escolha privilegiou um tema bastante atual. Claro que o tema saneamento básico também será tratado com um viés religioso – nem poderia deixar de ser – como o alerta de que o aborto não é uma opção para o enfrentamento do vírus da zika, associado a casos de microcefalia de bebês. Contudo, o que mais chama a atenção é que, em ano eleitoral, a CNBB faz a sua parte também em apontar a falta de prioridade dos nossos governantes com o saneamento. Por isto considero bastante nobre por parte da Igreja Católica. Ao invés de se deter apenas àquilo que os dogmas religiosos defendem, engaja-se a um tema que interessa a todos, fiéis ou não. Afinal, a entidade é muito influente e enraizada na sociedade brasileira.

Em uma pesquisa rápida no Google, achei os seguintes dados apresentados pelo Instituto Trata Brasil (que é uma Oscip - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) oriundos de diversas fontes: apenas 48,6% da população brasileira tem acesso à coleta de esgoto. Significa que mais de 100 milhões de pessoas não têm acesso a esse serviço. Segundo o Instituto, apenas 39% do esgoto do país é tratado e 6 milhões de habitantes ainda não têm acesso a banheiro.

Enquanto no Sul do país o índice é de 43,9% (o maior é o Centro-Oeste, com 45,9%), as regiões Norte e Nordeste têm 14,7% e 28,8% de esgoto tratado. No Sul, o RS tem 84,06% de redes de água; 29,15% de coleta de esgoto e 12,58% de tratamento de esgoto. Sem contar que desperdiça 37,23% de toda a água consumida.

A frase “fazer esgoto não dá voto”, embora batida, parece apropriada. Políticos dependem de votos, e os votos aparecem quando mostram obras. Ande nas ruas de qualquer município brasileiro e poderá perceber que muitos eleitores classificam uma administração como boa ou ruim baseadas em asfaltamento de ruas. Claro que pavimentação é importante, mas me parece ser menos essencial do que o acesso à água. Apesar de ser diretamente relacionado com a saúde, construir postos de saúde sempre rendeu mais do que investir em saneamento e em prevenção.

Esforços são feitos, mas nunca chegaram perto do montante ideal. O próprio Governo Federal até investiu significativamente através do PAC, tendo destinado em torno de R$ 70 bilhões a obras ligadas ao saneamento básico. Porém, calcula-se que para o Brasil atingir a universalização dos quatro serviços do saneamento (água, esgotos, resíduos e drenagem) precisaria investir R$ 508 bilhões até 2033 (com burocracias de trâmite, licenciamento ambiental, sobrepreço aplicado por empreiteiras e desvios de dinheiro público, deve ser pelo menos o dobro).

É louvável a Campanha da Fraternidade deste ano. Ela toca numa ferida tão grande que pode provocar grandes debates sobre saúde, educação, cidadania e preservação ambiental. Em ano eleitoral (de outras campanhas), fico na torcida que toque os corações de eleitores e candidatos.

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