Vai ter caos?
Sexta, 11 de Março de 2016

A condenação do empresário Marcelo Odebrecht a 19 anos e quatro meses de prisão certamente será um grande marco na história da Justiça brasileira. Trata-se de um dos homens mais ricos do Brasil. Inverte toda a lógica que nos acostumamos de que cadeia é coisa de pobre, de preferência preto e de periferia. Até políticos nós já tínhamos visto serem condenados. É verdade que poucos em relação à extensa lista de merecedores, mas dá uma esperançazinha marota de que há algum tipo de evolução.

Citei políticos porque em geral, todas as vezes que estourou algum tipo de esquema de corrupção, eles eram o teto dos indiciados. Em táticas de proteção, nunca se chegava também àqueles que o ex-senador Pedro Simon chama de “corruptores”. Coloquei entre aspas porque tenho dificuldade para saber se quem propõe o esquema é um empresário que vai ganhar grana e por isto paga por “serviços obscuros”, ou se os próprios agentes públicos que, para “garantir a aposentadoria”, propõe benefícios a empresas em troca de propinas. O fato é que, independentemente se corruptor ou corrompido, ambos são subgêneros da espécie corrupta. Talvez a grande sacada tenha mesmo sido a abertura do mercado de delação premiada. Esta prática está rompendo paradigmas. É a versão moderna do dilema hamletiano. Ao invés de “ser ou não ser”, agora a dúvida é “salvar-me ou sacrificar-me?”.

Já fiquei triste, decepcionado, resignado com todos os últimos fatos. No entanto, o atual sentimento que tenho a cada linha lida sobre lava-jato, condução coercitiva, zelotes, japonês da federal, construtoras, é de que quero muito que o caos tome conta. Que os pegos não sejam só o PT, o Lula e a Dilma. Que mais da metade do PMDB e do PP também. E do PSDB. E de todos os partidos. O mais importante é que seja feito barba, cabelo e bigode. Até entendo que o processo é lento, pois os pontos aos poucos vão se ligando e aparecendo mais uma parte da sujeira. Hoje é Cunha e Lula. Mas não pode demorar para que os demais metidos em rolos apareçam. Se apenas um lado ruir, nada muda (acredito que existam pessoas fora de esquemas. Já os partidos...).

Penso que vamos precisar passar por um completo colapso político nacional, com partidos ruindo, para talvez conseguir aquilo (ou pelo menos uma parte satisfatória) que as ruas pediram em 2013: renovação, reforma política, fim da corrupção. A figura que me vem à mente a cada vez que o fio de esperança começa a arder é daquele bêbado arrependido depois de um porre homérico, prometendo que nunca mais vai beber, enquanto toma litros de água e devora aspirinas.

Estou esperando para ver o que vai acontecer neste domingo, data marcada para manifestações nos grandes centros do país. Qual o tamanho da guerra entre aqueles que se dizem contra a corrupção e os que dizem que “não vai ter golpe”. Atualmente, com o que os promotores, a Polícia Federal e a Justiça nos apresentaram, é até compreensível a divisão. Quando todos os envolvidos em corrupção forem responsabilizados, aí os lados que hoje se enfrentam poderão marchar juntos. Vai ser a saída do caos.
 

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