Guerra entre Poderes
Sexta, 18 de Março de 2016

Escrever uma coluna nesta semana está difícil. A cada tentativa que fiz nesta quinta, a situação mudava. Portanto, perdoem-me se este material estiver desatualizado. Por ora, quero dizer que estou com pena da presidente Dilma Rousseff. Fico imaginando o que pode ter passado na cabeça dela quando correligionários começaram a pressionar pela indicação do ex-presidente Lula à Casa Civil. Não creio que deve ter sido uma decisão fácil. Precisou também de coragem, já que era visto que enfureceria uma significativa parcela da população. Por outro lado, se negasse, passaria por ingrata, já que sem Lula não existiria nenhum dos mandatos de Dilma, e isto ainda poderia afastar ainda mais os poucos que ficaram a seu lado.

Sim, é verdade (mas não exclusividade) que Dilma se elegeu a partir de mentiras, colocando no programa de governo de adversários as medidas que teve de tomar. É verdade também que passamos por uma crise bem complicada e que o governo está parado. Entretanto, ser mau gestor (desde que não cometa crimes) – dentro dos nossos conjuntos de regras que regem a democracia – não é crime. Assim, Dilma corre risco graças a todas as gravíssimas denúncias que envolvem o seu partido.

A frase mais lúcida que ouvi nos últimos dias foi a de que quem está informado está confuso, quem tem certezas está mal informado. Digo isto porque tenho dúvidas em relação a algumas atitudes do dr. Sérgio Moro. Vazamentos seletivos, a condução coercitiva do Lula, gravação e divulgação de áudios, entre outros, dão a clara impressão de que ele sabe o impacto que causa na opinião pública. É por todo este protagonismo que alcançou que seus atos são contestados e deveriam ser mais transparentes. Numa democracia, por mais que tenha todo o clamor popular, adotar a figura de um justiceiro que quer derrubar o sistema não é legítimo.

Por outro lado, estamos tendo a oportunidade de ver um Lula muito mais parecido com aquele enfurecido de 1989 do que o de 2002, mais suavizado. Num primeiro momento, assumir como ministro joga contra si. Atesta, no mínimo, o receio de ser preso. Os vários palavrões disparados mostram que Lula está preparado para a guerra, com esperança de “tapar a boca” dos críticos em 2018. Com um discurso de vítima, pretende desqualificar Moro para contornar este momento, em que é considerado o principal vilão do país por milhões de pessoas. Tem a favor de si o tempo, já que um processo de impeachment dura pelo menos três meses, e o Supremo também não é dos mais ágeis.

É preciso cuidado para não tratar Lula como um demônio nem Sérgio Moro como um santo. Nenhum deles está 100% correto. Neste cabo de guerra entre Executivo e Judiciário, quem será decisivo para derrubar ou não o governo é o Parlamento, que estrategicamente não está em posição secundária. Entre os deputados e senadores que já têm postura cristalizada a favor de um lado ou de outro, há dezenas que não querem se queimar com o governo (caso ele permaneça), nem com os eleitores (caso o governo caia). Temer, Cunha e Renan, por enquanto, estão pianinhos, à espreita. Teremos um enredo ainda mais rico quando eles passarem a ser protagonistas.
 

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