Defender o indefensável
Quinta, 24 de Março de 2016

As manifestações a favor e as contrárias ao impeachment da presidente Dilma, apesar de todas as suas diferenças, guardam aspectos semelhantes. Fiz aqui algumas considerações.

Os atos a favor do impeachment até tem organizadores, (o Movimento Brasil Livre, especialmente) porém adesão de poucos movimentos. Dentre os contrários, é evidente a participação de CTB, CUT, UNE e MST, etc. Do lado “verde e amarelo”, raros os políticos são bem recebidos. Foram aceitos apenas aqueles que desde o início (principalmente quando as manifestações perderam força) engrossaram o coro de “fora Dilma”. Do lado “vermelho”, ao contrário, os políticos e militantes portando bandeiras partidárias são bem-vindos. Os “direitistas”, como se organizaram recentemente com uma bandeira vaga (até os corruptos se dizem contra a corrupção), entendem que nenhum partido nos dias de hoje tem moral para posar de “santo”.

A organização dos movimentos sociais também acrescentam às manifestações uma logística mais apurada, com vários ônibus disponibilizados do interior para a capital. É preciso também reconhecer (e as pesquisas indicam) que a renda destes é mais baixa do que a atestada no outro lado, majoritariamente de classe média. Contudo, a ida para a rua destas pessoas mais, digamos assim, privilegiadas, é espontânea. Não que os contrários ao impeachment não reúnam simpatizantes que vão para a rua sem precisar de qualquer incentivo. Porém, comparativamente, este número é bem menor.

Apesar disto, o que mais chama a atenção nos dois movimentos é que, internamente, ninguém coloca a mão no fogo por ninguém. Mesmo entre “a resistência”, o brado principal é “não vai ter golpe”, e não “Dilma e Lula são inocentes”. Apontam ilegalidades nas investigações, nos vazamentos, a parcialidade da imprensa, o sentimento de injustiça porque “só um partido está sendo investigado”, o “desrespeito à democracia”. Do outro, ninguém até agora pediu Aécio, FHC ou qualquer outro para presidente. Até houve quem implorou pela intervenção militar ou pelo Bolsonaro, mas me reuso a levar estes a sério.

No fim das contas, a pior coincidência é que ambos os lados, em meio aos seus objetivos finais, defendem o indefensável. Sair com a camiseta amarela na rua pedindo o fim da corrupção e o impeachment, mas considerar normal que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (que está em todas as listas de propina apresentadas até agora) faça manobras obscuras é, no máximo, ser seletivo na intolerância à corrupção. Defender que Dilma caia para “a economia melhorar”, mesmo que tenhamos que ver Michel Temer e seu partido na presidência é assinar um atestado de que procedem as acusações vindas do lado oposto de que o ódio é apenas contra o PT. E, por outro lado, falar em democracia, rejeitar o “golpe”, pedir investigações e punições contra políticos de outras siglas, mas ser conivente com todos indícios das picaretagens feitas para manter o poder sob a justificativa de que tirou “milhões da miséria”, é concordar com o lema malufista de “rouba mas faz”. Ou seja: o que os dois lados têm de mais parecidos é a incoerência.
 

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