O cerrado e a savana
Sexta, 01 de Abril de 2016

Quem errar mais ganha? Parece que essa é a premissa do jogo político brasileiro. É muito raro aparecer alguma voz lúcida nesse panorama em que ou se está do lado do impeachment, ou do “não vai ter golpe”. Talvez porque alguém que não falar algo que é esperado por um dos lados, vai acabar sendo vaiado por ambos. Enquanto muitos vão às ruas pedindo ética, em Brasília está rolando um vale-tudo em que seriedade, grandeza e dignidade não encontram espaço para articular, muito menos encontram eco na própria sociedade.

A oposição não engoliu a derrota em outubro de 2014. Então, o que faz? Comporta-se como mau perdedor, como o dono da bola, que acaba com o jogo quando seu time está em desvantagem. Alia-se a qualquer um que acene com a possibilidade de virar o jogo do poder. Depois de passar 14 anos sem encontrar um discurso que fosse ao encontro dos almejos da população para ter sucesso nas urnas, somos obrigados a aguentar uma oposição por oposição, sem uma discussão autêntica sobre os rumos do país, a ouvir a justificativa de que Eduardo Cunha “é um mal necessário”, e ver quem grita contra a corrupção se apegar a Temer e a Renan como se fossem messias. Sequer há algum tipo de meia culpa, mesmo com nomes aparecendo em várias listas de investigados.

E o governo? Diante da ameaça de ruir, oferece ministérios a qualquer um que possa ajudar a manter a presidente em seu posto, acena com liberação de gordas emendas parlamentares fingindo ignorar que os cofres estão vazios, que programas sociais foram cortados, que quer a volta da CPMF para cobrir o rombo, e que diz não ver outra alternativa a não ser mexer na previdência. Tenta intervir em instituições para evitar prisões ou, ao menos, para atingir também adversários. Abriu mão de vez de governar, algo que já não fazia da melhor forma em tempos bem mais calmos. Zika vírus, microcefalia, dengue, febre H1N1? Não importa se estamos tendo índices preocupantes dessas doenças, importa é oferecer o Ministério da Saúde para o PP e garantir que não repita o PMDB e desembarque do governo. Tem Olimpíadas? Ótimo, com essa visibilidade vai ser mais fácil de algum partido aceitar os ministérios do Turismo e do Esporte e evitar o impeachment. Afinal, o que importa é evitar o golpe.

Estamos tomando vários golpes por dia. Só do PMDB eu já perdi a conta. A cúpula desse partido me parece um gigantesco monstro gelatinoso que vai englobando tudo o que cruza o seu caminho para tentar matar a insaciável fome de poder. Colocaram o vice de uma chapa há cinco anos e pouco para trabalhar nos bastidores, espalhando minas, até que conseguissem implodir e ganhassem de mãos beijadas um posto ao qual não apresentam concorrentes desde 1994.

Se tiver algum aspecto positivo em tudo isto, é que as negociatas não ficam mais restritas a quatro paredes. Por analogia, o cerrado de Brasília está parecendo a savana africana e sua luta diária pelo topo da cadeia alimentar. O conceito de Aristóteles para “animal político” foi definitivamente alterado.

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