O chicote do corpo
Sexta, 08 de Abril de 2016

Neste clima de guerra a favor e contra o impeachment, é difícil não traçar paralelos entre o que Dilma Roussef está passando e a situação enfrentada pela ex-governadora Yeda Crusius. Faço a comparação não apenas por se tratar de duas mulheres, as primeiras – e únicas - a exercerem o respectivo cargo, mas por estarem em campos diferentes do espectro político (PT x PSDB), e pelas acusações semelhantes - caixa 2 na campanha e fraude em órgãos e/ou estatais (Petrobrás agora, Detran antes). Ambas sofrendo já no início do mandato (Dilma, no caso, do segundo). As duas, em meio a crises nas finanças.

Para quem não lembra, em novembro de 2007 (11 meses após a governadora assumir o posto), a Polícia Federal apontou uma fraude de R$ 44 milhões no Detran. Entre os presos, estava o empresário tucano Lair Ferst, ligado à cúpula da campanha que elegeu Yeda. Em fevereiro de 2008, instalou-se uma CPI no Parlamento gaúcho. A governadora foi acusada até de ter comprado sua casa com dinheiro da campanha. Nesta época, a situação ficou bem agravada após o então vice-governador, Paulo Feijó, divulgar a gravação de uma conversa que teve na época com o chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, em que este admitia que partidos aliados eram financiados por órgãos públicos. Além de Busatto, são exonerados o secretário-geral de governo, Delson Martini, e do chefe do escritório do RS em Brasília, Marcelo Cavalcante. Em julho do mesmo ano, o relatório final da CPI foi aprovado por 9 votos a 3, sem citar a governadora, isentando ex-secretários, e culpando as mesmas 40 pessoas já indiciadas.

Baita novela, né? Vice tentando derrubar a governadora, divulgação de áudio (não pela Justiça), indícios de que partidos políticos se alimentavam de desvios de órgãos do Estado, a certeza de que os desvios haviam começado em governos anteriores. Tudo bem que o pedido de impeachment foi arquivado no Parlamento, mas a CPI fez o então governo tucano sangrar. Sabe qual era a diferença? As mesmas pessoas que hoje falam que “Não vai ter golpe” eram as primeiras a encher a boca para acusar Yeda que, diga-se de passagem, ainda não foi condenada por nada. Ainda assim, não adiantou ter um governo com a marca do “deficit zero”, como talvez não adiante agora falar em Pronatec e Minha Casa, Minha Vida. Yeda tentou a reeleição, mas sequer chegou ao segundo turno (que sequer teve). Tarso Genro foi o único governador eleito em primeiro turno na história do RS. Nem Fogaça, que recém tinha deixado a prefeitura de Porto Alegre, ajudou a assegurar o segundo turno, já que seu partido sustentou o governo Yeda e ainda havia sido o ocupante anterior do Palácio Piratini.

Comentei sobre este assunto com amigos meus que hoje são contra o impeachment. As primeiras palavras foram “mas naquela vez era diferente”. Anui. Claro que era. O partido era diferente. Tem um ditado meio chulo, mas bastante adequado. A língua é o chicote do corpo. É ela quem revela a nossa incoerência. Há ainda outro ditado, que para a próxima é melhor não esquecer: "Pau que bate em Chico, bate em Francisco”.

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