À espera de domingo
Sexta, 15 de Abril de 2016

Vai ser difícil passar alheio aos acontecimentos de Brasília, mais precisamente na Câmara dos Deputados, neste final de semana. Afinal, trata-se do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Um rito longo, com poucas horas para descanso, que inicia nesta sexta e deve se encerrar na noite de domingo. Governo e oposição correm contra o tempo para conseguir os votos necessários. Os favoráveis à saída da presidente (ao menos até nesta quinta), contabilizavam com certeza 328 votos a favor, faltando ainda para os 342 que garantiriam a vitória para o “Fora Dilma”. A esfacelada base tem, segundo estimativas dos jornais do centro do país, entre 110 e 115 votos “Contra o Golpe”, porém ainda falta bastante para a marca salvadora de 172. Nas contas do Governo, são 58 indecisos. Da Oposição, 37. Se o primeiro número for o verdadeiro – e se todos andarem a favor de Dilma – o mandato da presidente está a salvo.

O problema é acreditar nesses números. O conflito entre as estimativas de cada um dos lados serve mais para marketing a fim de influenciar aqueles que não tomaram partido (“ei, você, venha para o lado que vai ganhar”) do que para qualquer outra coisa. Baseado nisto que o deputado estadual Ibsen Pinheiro (PMDB), que era o presidente da Câmara durante o processo de impeachment contra Collor, em 1992, disse que é mais provável que se alcance uma unanimidade do que um racha. Até porque nada acaba no domingo, e os mais espertos (ou menos identificados com algum dos tipos de posturas adotadas até aqui) não querem errar o pulo. Afinal, o balcão de negócios está aberto em ambos os lados, e serão priorizados quem vestiu a camisa.

Não é só na contagem que os dois lados têm agido de forma semelhante. É no discurso de “pacto de governabilidade” após domingo. É nos jogos – legais, mas nada morais - de interpretação de regimento e promessas de distribuição de cargos. De incitação ao povo. De toma lá da cá.

Eu ainda não sei o que é realmente pior. O prosseguimento do desgoverno Dilma, ou engolir um governo Temer, que tem tudo para ser uma (outra) grande farra de distribuição de cargos. Deixar o cargo com quem o conquistou através de mentiras e que não tem conseguido apresentar medidas eficientes, ou entregar para quem arquitetou um golpe (sim, o golpe é exclusivamente de Temer e Cunha, e não do povo que está insatisfeito com os rumos do país). Manter a democracia, a Constituição e um péssimo governo, ou aceitar um jogo político baixo para que as coisas possam melhorar? Eu ainda tenho muitas dúvidas. A única certeza que tenho é que, independentemente do lado que vencer no domingo, esta vitória não será imaculada. Estará manchada por todos os artifícios usados nos meios utilizados para atingir o fim desejado. Contudo, me pergunto, achando que a questão vai cair no vazio: mais alguém está preocupado com isto?

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