Um desejável grand finale
Sexta, 29 de Abril de 2016

Nunca achei que o Brasil ficaria um período tão grande sem governo. Na prática, é isso o que tem ocorrido, desde antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Há muitos que até nem sentiram falta, pois estão acostumados a não ser a prioridade quando se trata de política. Afinal, todos sabemos que o bem-estar de todos é apenas um pretexto, que na verdade o interesse principal é sempre no poder. Sim, porque quem tem poder pode quase tudo, pode até governar para o bem de todos.

A presidente Dilma sentiu o baque. Sabe que em – no máximo – duas semanas estará afastada. Diga-se de passagem que, apesar de tudo, mostrou dignidade. Foi até o fim, vendo um por um de sua antiga base trocar de lado. Claro que ela tem culpa no cartório. Talvez hoje deve pensar coisas do tipo “eu poderia ter recebido esses políticos mais vezes”. Acho que os próprios deputados e senadores do PT devem pensar que poderiam ter pegado mais leve com o Governo, abrandado o fogo amigo. O que eu tenho certeza é que todos no Partido dos Trabalhadores pensam algo como “maldito dia que colocamos o PMDB na vice-presidência”.

Muitos dos passos adotados por Michel Temer, o atual vice e quase presidente em exercício, para atingir seus objetivos foram constrangedores. Desde a cartinha mimimi que mandou para Dilma no fim do ano passado, seguindo pelo vazamento do pronunciamento que faria após a sessão na Câmara uma semana antes da votação do impeachment, até a declaração de que uma proposta de nova eleição seria um “golpe”, passando pela negociação aberta que está fazendo para ter um governo de coalizão, que reunirá desde quem sempre foi oposição aos governos Lula/Dilma (PSDB, DEM e PPS) até aqueles que foram mudando de lado e sacramentaram o fim prematuro do segundo mandato da presidente.

Temos sempre que pensar que até nas coisas ruins há algo positivo. O único fato que eu percebo, neste caso, é que o PMDB, maior partido do Brasil, que desde Orestes Quércia em 1994 (há 22 anos) não apresenta candidato a presidente, agora vai ter que se obrigar, nem que seja em 2018, a ir para o voto encabeçando chapa. Vai ter que deixar a zona de conforto, parar de apoiar todos (sem estar ao lado de nenhum) os candidatos a partir das próprias dissidências. Vai ter que enfrentar de verdade as disputas internas, e não apenas acomodar as diferenças embaixo do tapete.

É por estas e por outras que eu torço do fundo do meu coração para que a chapa Dilma-Temer seja cassada e que venham novas eleições. Até deixo para a presidente Dilma, a capitã que naufragou com o barco enquanto os ratos fugiram, a seguinte sugestão: vá ao Supremo Tribunal Federal. Diga que a campanha que a elegeu teve dinheiro de Caixa 2 (todo mundo sabe mesmo que todas tiveram). Impugne a chapa. Reserve uma atitude altruísta para seu último gesto. Tire o picolé da mão de Temer. Empurre ele para a urna eletrônica. Um golpe no golpe! Isso sim seria um grand finale desta super novela da política brasileira! Seria genial! #impugneachapapresidenta

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