O que derrubou e o que pode derrubar
Sexta, 13 de Maio de 2016

Não foram as pedaladas fiscais. Todos sabemos disto, até mesmo quem argumentou que elas configuravam crime de responsabilidade. Se a economia estivesse bem, se o Governo Dilma tivesse altos índices de aprovação, as pedaladas seriam ignoradas, como foram em outras épocas. Provavelmente seriam até mesmo desnecessárias, afinal, se a economia vai bem, não é necessário maquiar as contas públicas. Mesmo que as pedaladas tenham crescido vertiginosamente desde 2008, não foi o que derrubou Dilma.

Não foi nem a assinatura dos seis decretos de suplementação orçamentária feitos em 2015 por não conseguir cumprir a meta fiscal efetuados sem a autorização do Congresso, em desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. Talvez se houvesse essas autorizações – que teriam de ser negociadas com contrapartidas para que deputados e senadores aprovassem, a coisa toda nem teria acontecido.

Dilma cai, em grande parte, por culpa própria e do PT. O que foi apontado no processo do impeachment foi apenas uma desculpa. Dilma foi cobrada pelo que disse na campanha e não cumpriu. Por ter escolhido como parceiro o PMDB, que é tão confiável quanto um fio dental amarrando um caminhão. Por ter sido uma escolha direta de Lula, furando a fila de quadros mais históricos (e identificados) do partido. Por ter fogo amigo entre os próprios correligionários no Congresso.

O mais irônico nisso tudo é que talvez os fatos mais salientes que derrubaram a presidente ocorreram na sua área de especialização. Ex-secretária estadual e ex-ministra de Minas e Energia, Dilma não conseguiu fortalecer justamente esta área. Por causa de apagões, consequência da falta de competência para arrumar o sistema de geração de energia do país, teve que aumentar a tarifa. Os combustíveis estão com um valor excessivamente alto, e a Petrobrás está em frangalhos por causa dos desvios. Isto poucos anos depois das fotos vestindo o macacão laranja da estatal ao lado de Lula e das promessas de um país rico, cujos royalties foram disputados a tapas pelos Estados.

Temer viu tudo isso. Percebeu que o cenário convergiu a seu favor. Contou com a sede do próprio partido e de outros por poder. Articulou, lançou manifesto do partido, depois vazou carta e discurso. Contudo, também mirou longe. E, para acertar, sabe que tem pouquíssimas balas no pente. Mais do que ninguém, sabe que está longe de ser unanimidade entre os eleitores que pediram a saída de Dilma. Tem a missão de arrumar a casa sem desagradar os eleitores e a base que reuniu ao seu redor. Sabe que muitos que estão ao seu lado neste momento na verdade queriam novas eleições. E ainda tem que se preocupar com a Lava Jato, que mira em dezenas de aliados. Já deve ter sido alertado de que a realização das Olimpíadas pode ser um novo 7x1. Teme (para fazer um trocadilho) que a faixa presidencial fique menos tempo em seu peito do que realmente pretende. Torce para que as eleições municipais tirem o foco de si. Enquanto realiza o sonho de ser presidente, vai ter que ser extremamente hábil para não ter um pesadelo.
 

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