A primeira reforma
Sexta, 20 de Maio de 2016

O presidente interino Temer promete encaminhar nas próximas semanas uma proposta de reforma previdenciária. Muito necessária, porém ainda mais polêmica. Uma proposta que certamente vai bater de frente com interesses corporativos, sindicais, patronais e que deve encontrar uma grande resistência entre os parlamentares. Ficarei surpreso se a proposta passar com facilidade e sem muitas alterações no Congresso. Ao menos não sem ser precedida por um feirão de cargos.

Antes de mais nada, é preciso dizer que essa reforma já tem mais de 20 anos de atraso. Deveria ter sido proposta lá quando Fernando Henrique propôs o demonizado fator previdenciário. Entendo bem o sentimento do trabalhador que vê a proposta como uma ameaça aos seus direitos. Contudo, inegavelmente temos uma legislação descontextualizada. Hoje em dia, a expectativa de vida aumentou e o número de nascimentos foi reduzido. O tempo de contribuição, muitas vezes, sequer cobre o pagamento das aposentadorias.

O quanto contribuir também é algo bastante discutível. Obviamente, quem ganha mais tem que contribuir mais, e isto não pode ficar restrito ao saldo do mesmo percentual. Por isto, a questão do teto também causa polêmica, afinal, quem contribuiu sobre um salário de, digamos, R$ 20 mil, tem uma certa razão em não gostar da ideia do teto ser de pouco mais de R$ 4 mil. E também tem o piso, que é inferior a um salário mínimo. Essa desvalorização que os anos causam nas aposentadorias não pode ficar de fora das negociações. Eu, que não passo de um mero conhecido distante da dona matemática, não me atreveria a tentar resolver essa equação.

É importante dizer também que a reforma previdenciária não pode vir sozinha. Há muitas outras distorções que precisam ser corrigidas. Coragem para encaminhar o projeto não basta. É preciso de comprometimento parlamentar. E aí é que o negócio tranca. As organizações vão intervir para puxar para o próprio lado, afinal, o próprio interesse sempre está acima do bem de todos. E é aqui que cabe uma observação enquanto eleitor: votamos em quem tenta fazer o bem geral, ou apenas o próprio bem? E a classe política? Vota com a compreensão necessária para alterar a realidade do país, do Estado, do município, ou vota de acordo com o desejo dos segmentos que o elegeu? E o que fazer com o medo de ficar marcado, de não ter apoio para a reeleição?

De uma coisa eu tenho certeza: os piores políticos que podem existir são aqueles que não se desgastam, que optam por propor e votar de acordo com o que é conveniente. Que não têm compromisso com resultados, com índices, com um projeto que vise um “bem maior”. O pior é que são esses, os populistas, que abusam de medidas simpáticas, que fogem de debates polêmicos, eles que são reconhecidos como bons políticos e têm público eleitor cativo. Não é à toa que temos pouca renovação na política; que as reformas todas do país estejam atrasadas; que não atingimos justiça social; que o país, os Estados e os municípios estão quebrados; que a educação não acompanhou as mudanças no mundo; que essa crise parece que nunca vai ter fim.

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