Fora de hora
Sexta, 03 de Junho de 2016

Em 20 dias de presidência interina, Michel Temer já parece não ser – para aqueles que o apoiaram – o grande salvador da pátria. E não é apenas pelos dois ministros que já caíram (Romero Jucá, do Planejamento, e Fabiano Silveira, da Transparência), ou por haver cada vez mais indícios de que Temer foi uma alternativa para livrar grande parte do Congresso das investigações da Lava-Jato. É por não saber lidar com aquilo que é simbólico. E nem tô falando do Ministério da Cultura. Uma semana depois de aprovar na Câmara a alteração da meta fiscal que ampliou o déficit para R$ 170,5 bilhões, o interino declarou que os deputados mereciam aplausos por terem aprovado a “pauta bomba”, um pacotão de reajustes para Judiciário, Ministério Público, Legislativo, Tribunal de Contas da União e servidores do Executivo que, até 2019, devem representar pelo menos R$ 58 bilhões (R$ 8,5 bilhões somente neste ano).

Simbolicamente, parece que a crise é somente para os outros. Não importa se o desemprego aumenta, se inflação há muito já engoliu os ganhos salariais obtidos, se a população não concorda com reajustes para quem ganha muito acima do que ela nunca vai receber. Venceu a queda de braço o corporativismo de uma classe privilegiada.

Na Assembleia, as respectivas categorias (excluindo o Executivo) também tiveram reajustes aprovados. Sartori e deputados de sua base seguraram os projetos – datados da metade do ano passado – o quanto puderam. Depois de aprovado, o governador já disse que irá vetar, embora saiba que dificilmente o Parlamento vá manter o veto. E aqui não vai elogio nenhum a Sartori, mas ao menos neste ponto dá para reconhecer que ele seguiu a mesma linha. O governador sabe que os servidores do Executivo, sobretudo os professores, vão acabar parando. Que poderemos ter uma greve gigante do magistério. Que estes reajustes seletivos vão piorar a situação do Governo. E que, apesar de convocar todos os poderes para um esforço a fim de conter os gastos, o Executivo terá que fazer isto sozinho.

Se Dilma já estava segurando as propostas, Temer poderia ter feito o mesmo. Por mais que estes reajustes sejam merecidos, que viriam futuramente contemplando a retroatividade, que poderia contrariar os interesses da própria base, que compraria briga com os outros poderes, ou que é preciso fortalecer a relação com os servidores, faltou a Temer entender que se não era a hora de aprovar aquilo que chamam de “reposição”, muito menos era o momento de comemorar e pedir aplausos ao Congresso. Faltou perceber que sua primeira medida foi atender a um conjunto privilegiado, enquanto os municípios e Estados seguem pedindo esmolas para amenizar os efeitos da crise criada pelo próprio Executivo Federal.

Nunca antes os governantes foram tão vigiados como agora. A informação nunca chegou ao público tão facilmente como após a popularização das redes sociais. Se a comunicação se modernizou, o governo (com Dilma antes, com Temer agora) infelizmente segue demonstrando que tem grande apreço por práticas antigas.

Comentários