Algo acontecendo
Sexta, 17 de Junho de 2016

Espero, daqui uns 20 anos, olhar para trás e ver que este período entre 2013, quando estouraram as manifestações de rua, até o fim da Lava-Jato (que espero que tenha acabado até lá) foi especial. Assim como lia em livros de História, repetidamente, os episódios de 1968 e sentia vontade de ter participado daquilo, penso que poderei com certo orgulho dizer que acompanhei in loco alguns dos grandes acontecimentos desta década. É inegável que tem algo especial, menos por sabermos o que queremos do que pelo que não queremos.

São dias turbulentos. De 2013 para cá, já vimos protestos que começaram por transporte público mais barato, pela derrubada de uma Proposta de Emenda Constitucional que retirava o poder de investigação de órgãos como o Ministério Público. Ouvimos gritos contra a corrupção e uma divisão nacional entre defensores dos Governos Lula/Dilma e seus oposicionistas. Vimos uma gurizada do ensino médio se trancar dentro das escolas, com cartazes dizendo "o professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo". E também tivemos muitas polêmicas sobre a ação policial.

Na verdade, tá todo mundo de saco cheio de tudo, e com uma certa dificuldade de construir alternativas. Metaforicamente, a sensação que eu tenho é de que todos que reclamam (justamente) de alguma coisa, o fazem como uma criança pequena que se nega a comer, por mais que a mãe tenha oferecido dúzias de tipos diferentes de comida, e que a cada negativa responde para a mãe "tô com fome". Isso porque nossos conflitos não se resumem a posição no espectro político, a uma luta de classes ou a queda de braço entre diferentes gerações. Vai além: uso do espaço público, direito de ir e vir, participação na economia etc.

Paralelamente a essa turbulência, se fortalecem grupos que propõem algo diferente. Há um terreno fértil para ativistas, ONGs, coletivos, grupos estudantis. Impulsionados pela internet, temos uma série de personagens querendo dizer algo. Como tudo isto será sintetizado, eu ainda não sei, porque a complexidade supera a lógica binária. Alguém que defende um Estado mínimo também pode ser um ativista da causa homoafetiva. Outro, de esquerda, pode também ser ativista das causas animais. Um evangélico pode também ser vegano. Outro, ser ao mesmo tempo favorável ao direito à propriedade e ativista do software livre. Os alunos que são contra as ocupações das escolas podem estar ao lado dos que as ocuparam quando o assunto for transporte público. São várias as possibilidades, e talvez venha daí a dificuldade em fazer os movimentos ganharem corpo. Como não existe apenas um "inimigo comum", as pessoas podem estar em lados semelhantes ou opostos dependendo do tema.

Qual será o resultado disso tudo? Sairemos desta com mais consciência política? Com mudanças nos hábitos e comportamentos? Ou nos arrependeremos por agir de determinada forma, ou até por deixar de assumir um lado em cada cabo de guerra. O fato é que, olhando atrás da janela de casa, ou diretamente da linha de frente de uma manifestação, tem algo acontecendo.

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