Temeridades
Sexta, 24 de Junho de 2016

Ouvi atentamente a entrevista concedida pelo presidente interino Michel Temer para o jornalista da Globonews, Roberto D'Ávila. Como não dá para comentar toda ela, vou ficar num único ponto, aquele entre tantos que mais me incomodou. Em certo momento, Temer diz algo que eu entendi como "o grande problema demonstrado pela Lava-Jato foi o caixa 2 de campanha". Claro que eu não esperava de Temer uma confissão do tipo "isto sempre foi assim em Brasília". Ninguém vai admitir isto, nem que tenha todos os ministérios derrubados, aliados cassados e o partido enterrado na lama até o pescoço. Por isto, nesta coluna vou ignorar aqui os crimes cometidos para fazer esses "simples" caixa 2, esquecer que os bilhões de dinheiro já roubados neste país fazem falta em várias áreas, e também vou conter meus instintos mais primitivos aflorados por um comentário desses. Vou ficar apenas na parte do financiamento de campanha.

Esta será a primeira campanha em que pessoas jurídicas não poderão fazer doações. Embora seja válido avaliar como ocorrerão estas campanhas franciscanas, ainda quero ver sua aplicação em campanhas estaduais e nacional, por terem características mais abrangentes, envolverem muito mais votos, e por tradicionalmente serem bem mais caras. Se por um lado aquele que esbanjar muito causará desconfiança, por outro a falta de recursos favorece quem já tem mandato e/ou fama. Por outro lado, como estava, com as empresas podendo doar para qualquer campanha (inclusive para candidatos adversários) também não dava sensação alguma de lisura. E os que detinham mandato e/ou fama também se beneficiavam.

Temer disse que era favorável ao meio-termo, ou seja, de que pessoas jurídicas poderiam doar, mas apenas para um candidato. Aquele que "realmente o representasse". Embora melhor do que vigorava anteriormente, ainda assim me parece injusto. Afinal, as empresas têm interesses e optariam por candidatos dispostos a atendê-los. Isto manteria para sempre a mesma lógica do país de olhar de cima para baixo. Candidatos que pregam maior controle do Estado, por exemplo, teriam menos chances. E por mais que não se concorde, no jogo democrático, é preciso que todos tenham chances iguais.

O jornalista Roberto D'Ávila alertou para o fato de que, numa disputa sem dinheiro, a tendência é de que candidatos que representam grupos organizados, de igrejas evangélicas a sindicatos, teriam ampla vantagem. Também é verdade. Diante deste argumento, não vejo mais o financiamento público de campanha como um absurdo. As campanhas sempre tiveram dinheiro público (e não me refiro somente ao fundo partidário), os praticantes da formação de caixa 2 que o digam. O complicado, neste caso, é acreditar que seja viável estabelecer um método de distribuição de recursos (antes de chegar aos partidos ou entre os integrantes dos partidos) que favorecesse a democracia. A esperança segue sendo a consciência do eleitor. Entretanto, pelo histórico, nem isso empolga.

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