Não foi dentro de campo
Sexta, 08 de Julho de 2016

Tenho ótimas recordações da realização da Copa do Mundo no Brasil. Mais especificamente em Porto Alegre. O clima de festa era incrível. A convivência com estrangeiros foi muito legal. Surpreendentemente, também não tivemos grandes problemas de organização, ao contrário de todas as previsões catastróficas. Indiscutivelmente, a Copa do Mundo no Brasil foi um sucesso (apesar do 7x1) pela participação do povo brasileiro.

É por esse precedente que também acho que a primeira Olimpíada da América do Sul será um sucesso. Apesar dos atrasos nas obras, da sensação de insegurança, da poluição, da dengue, zika e chikungunya, e até da H1N1. Apesar dos desvios de recursos públicos nas obras e nas bolsas de incentivo aos atletas. No fim, otimista que sou, acho que tudo vai acabar com uma saudação à Baía de Guanabara, ao Pão-de-Açúcar e ao Cristo Redentor.

Em compensação, eu compreendo todas as manifestações que se lê ou ouve sobre a Tocha Olímpica, que nesta semana passou pelo RS. É constrangedor realizar uma grande festa durante uma crise política, institucional e financeira como a que está aí. Não sabemos nem quem será o presidente do Brasil daqui a quatro meses, se volta Dilma ou fica Temer. Entendo que fica difícil de comemorar e bater palmas para o fogo olímpico tendo acordado todos os dias nos últimos meses ouvindo sobre operações da Polícia Federal e de prisão de políticos, empresários e servidores públicos.

Inquestionavelmente (falando hoje), foi um impulso megalomaníaco querer realizar Copa e Olimpíada em um intervalo de dois anos. Para a Copa, o Brasil se candidatou em 2003, sendo escolhido em 2006. Não satisfeito, em 2007 se candidatou para receber a Olimpíada. Tudo bem que na época ninguém esperava uma crise deste tamanho, pois o país vivia um grande momento econômico. O problema foi a preparação para os eventos. Até hoje Porto Alegre está em obras para a Copa. As empreiteiras lucraram milhões. O superfaturamento correu solto. Se parece ser bastante nobre sediar esses dois grandes eventos, não tem como não pensar que as candidaturas foram jogadas ensaiadas para que alguns poucos lucrassem. Houve corrupção até para ser a sede.

Obviamente não tem como esquecer os investimentos de R$ 39 bilhões nas Olimpíadas e R$ 25,8 bilhões na Copa (sem computar as obras de infraestrutura urbana). Nem dos atrasos nas obras e, principalmente, do que foi engolido pela corrupção. Se pensarmos nos problemas de saúde, educação e segurança que poderiam ser solucionados com esses montantes, então...

Torço para que a indignação provocada hoje pela passagem da Tocha Olímpica se transforme, ao menos durante os jogos, em orgulho. Nem que seja orgulho do tipo “ao menos não deu mxxxx”. E que depois de toda a festa, nossas medalhas de ouro, prata e bronze mais comemoradas sejam ganhas por Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário. Afinal, o 7x1 já tomamos mesmo. E nem foi dentro de campo.

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