Alianças e alianças
Sexta, 15 de Julho de 2016

Tem situações na política que são bastante curiosas. Inimigos em uma eleição passam a ser grandes aliados em pleitos futuros. É um processo que em geral o eleitor demora a aceitar. Não é diferente dentro dos partidos. É sempre um processo árduo o convencimento até obter a concordância da maioria. Afinal, todas as campanhas deixam rastros de mágoas, frutos de debates duros, divulgação de fatos mal contados, e até mentiras que, de tão repetidas, viram grandes verdades.

A grande saída que os caciques políticos inventaram para justificar alianças com inimigos é o bem-estar do povo. Ou então, a mais eficaz, que é eleger um inimigo comum. No segundo turno de 2002, quando Lula foi para a disputa com José Serra, os outros dois candidatos, Anthony Garotinho e Ciro Gomes apoiaram o petista, participando inclusive do programa eleitoral contra o inimigo comum, o PSDB e os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. A candidata à vice de Serra era Rita Camata, cujo partido, o PMDB, posteriormente trocou de lado sob a justificativa de “dar governabilidade” a Lula. Leia-se “governabilidade” como troca de votos suficientes para aprovar projetos no congresso em troca de ministérios e outros cargos importantes nos mais alto escalões, e numerosos nos baixos escalões.

Um pouco do martírio atual do PT passa pelo que ocorreu anteriormente. Na década de 90, conquistou muitos votos criticando duramente figuras da época. Quando chegou ao poder, descobriu que não dá para governar sozinho. Lula teve que se resignar a apertar a mão dos mesmos “300 picaretas” que disse existirem em Brasília. Assim, dá para entender que determinadas relações nunca são mais do que “apenas negócios”.

Às vezes, os maiores embates ocorrem dentro do próprio campo ideológico, sobretudo em campanhas. Lembro que, em 2008, a antiga “Frente Popular”, que reunia partidos de esquerda como PT, PCdoB e PSB, entre outros, se desfez. Manuela D'Ávila (PCdoB) e Maria do Rosário (PT) disputavam entre si quem iria para o segundo turno contra José Fogaça. Rosário tanto bateu que levou. Depois do ocorrido, ficaram mágoas. O mesmo aconteceu na última eleição presidencial quando Marina, ex-petista e então no PSB, “apanhou” nas propagandas eleitorais. Como esperar que depois ela fosse sair em defesa de Dilma?

Na eleição da presidência da Câmara dos Deputados, ocorrida na noite de quinta-feira, algo chamou atenção. No segundo turno, Rodrigo Maia do DEM (partido que sempre foi opositor do PT), recebeu votos de petistas, que preferiram ele e o conjunto formado por PSDB, PPS e PSB ao “candidato do Cunha” Rogério Rosso, que é do PSD, aquele partido que o Gilberto Kassab fundou para sair da oposição ao governo do PT e para apoiá-lo.

Que ninguém espere beijos e abraços entre PT e DEM ou PSDB. Hoje, isto é bastante improvável. Mas não tenho dúvidas de que a identificação de um “inimigo” comum entre políticos de posturas tão opostas deve ser bem observada. Porque, se existem alianças inadmissíveis, na medida certa e dependendo da causa, também existem as desejáveis. Se for para tirar poder de indivíduos como Eduardo Cunha, então, tá mais do que justificada.

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