Destruição e reconstrução
Sexta, 19 de Agosto de 2016

Algumas cartas entraram para a história da política brasileira. Em qualquer livro de História, podemos encontrar a íntegra da carta-testamento de Getúlio Vargas, escrita antes do seu suicídio, e até a carta de renúncia de Jânio Quadros, que dizia que “forças terríveis” o obrigavam a renunciar. No atual mandato presidencial, temos pelo menos duas que se candidatam a entrar para este rol. A primeira, do vice-presidente eleito e atual presidente interino, Michel Temer, com um “mimimi” que indicava o rompimento com a presidente Dilma Rousseff. E a segunda, emitida pela própria chefe afastada do Executivo nacional, lida nesta semana no Senado, faltando poucos dias para a sessão que deve concluir o processo de cassação do seu mandato.

Dilma é corajosa. Espero ver sua fala no Senado antes da sessão. Pelo conteúdo da carta, poderemos esperar por uma “queda em pé”. Afinal, tem que ter coragem para enviar um texto em que reconhece que errou bastante (ou o “conjunto da obra”). Também reitera que isto não é motivo para que seja cassada, já que o motivo de um impeachment deve ser a comprovação de cometimento de crime de responsabilidade (ela não considera que seja o caso).

A presidente até tenta, no documento, propor um pacto nacional, com realização de plebiscito e de reforma política. Ela sabe que isso não tem como sair do papel, assim como sabe que o próprio partido não apoia essa ideia e que só espera o final do processo para seguir adiante. É por isto que tenho admirado o comportamento da presidente. Abandonada, tenta as últimas cartadas, mesmo sabendo que são em vão. Diferentemente de Fernando Collor, que entregou uma (adivinhe!) carta de renúncia horas antes de ser impichado, tentando manter assim seus direitos políticos, Dilma vai até as últimas consequências. Politicamente, talvez não seja o ideal, mas não dá para não reconhecer uma resistência que beira a teimosia. Se foi golpe ou não, eu não sei. O fato é que Temer e cia. conseguiram o que queriam. Chegaram ao poder. O que farão com ele, observaremos em seguida.

Num mundo ideal, configurado o impeachment, deveríamos ter uma nova eleição. Entretanto, acho que não estamos em condições de passar por um novo pleito neste momento. Não bastasse estarmos em período eleitoral, a sociedade está muito dividida. Há muita mágoa, há ranço demais, a ponto de brigarem na internet porque determinado atleta bateu continência ao receber medalha olímpica. Constrangido, digo que acho melhor ter que aguentar o Temer como presidente. Se encararmos ele como algo neutro (para não falar insosso), ainda mais sabendo que a situação econômica do Brasil não melhorará nos próximos dois anos, quem sabe estaremos proporcionando aos partidos um momento para repensar um pouco. Haverá tempo também para a Justiça limpar uma quantidade maior de corruptos (e de maior quantidade de partidos). O desejável seria uma nova reconfiguração de forças, o surgimento de uma terceira via e, porque não, de novos nomes. Quem sabe, com alguma construção institucional das siglas após tanta destruição.
 

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