Da Mediocridade para a História
Sexta, 02 de Setembro de 2016

Lembram-se do Campeonato Brasileiro de 2005? Aquele em que anularam jogos por compra de árbitros que, no fim das contas, favoreceu enormemente o Corinthians? O mesmo em que, na partida decisiva, na final antecipada, entre os paulistas e o Internacional, o juiz não deu um pênalti claro no Tinga, e ainda expulsou o jogador? Aquele em que o presidente Fernando Carvalho, que ainda não tinha nenhum título com o Inter a não ser o Gauchão, intitulou-se campeão moral e, por isso, recebeu palavras debochadas de gremistas (inclusive deste que vos fala)? Pois é… a sensação que tive ao final do referido campeonato é similar a que tenho neste momento pós-consumação do impeachment.

Como gremista, é claro que eu não queria ver o Inter campeão, ainda mais num ano em que disputávamos a Série B. A cada jogo, contudo, dava a certeza de que teria que aguentar a flauta. Afinal, os colorados não ganhavam nada desde 1992! Daí veio a CBF, virou a mesa, ajudou o Corinthians e livrou (temporariamente) os gremistas da flauta. Secretamente, entre tricolores, admitíamos que roubaram descaradamente o título dos coirmãos e só não admitíamos em voz alta para não ouvir o choro. Bem feito para nós: aquele Brasileiro roubado deu ao Inter a força necessária para ganhar, a partir daí, duas Libertadores e o mundo, igualando-nos, e ainda uma Sul-Americana. Um título por ano, no mínimo. Foi um inferno.

Agora, vejo semelhanças no comportamento de quem queria o impeachment ao de nós, gremistas, após a virada da mesa. O Inter não foi campeão, e a Dilma caiu, embora saibamos que desse jeito, deixando o Temer e sua turma de suspeitos no lugar, a coisa não vai ser muito melhor. Digo isto a partir do ponto de vista da democracia. Sim, foi um governo ruim, que abusou da demagogia e de intervenções na economia para segurar o estouro para se eleger. É verdade que errou bastante. Entretanto, foi colocado lá. Deram a Dilma um segundo mandato. E mesmo que ela estivesse descontentando até o PT, o mandato era dela. As pedaladas, que ocorreram mesmo, não são suficientes para depor um governo. E prova disto foi o constrangimento causado pelos próprios senadores ao manter os direitos políticos de Dilma, mesmo após ter dado a sentença. Quase uma confissão, um mea-culpa.

Seguindo no ritmo de metáforas esportivas para a política, vejo a Dilma como um Vanderlei Cordeiro de Lima. Na Olimpíada de Atenas, ele liderava a maratona e ninguém pode garantir que ganharia a prova. Mas aí apareceu um padre irlandês (um Michel Temer de saiote) e impediu sua progressão. Os adversários passaram à frente. Porém, os expectadores começaram a torcer por Vanderlei, que chegou em terceiro. Ao tirar a possibilidade de Vanderlei chegar ao fim na frente dos demais, o padre irlandês transformou o atleta num herói, numa lenda, deu a ele uma projeção superior à que representaria uma medalha de ouro. Se chegasse ao final do mandato, Dilma seria lembrada como uma presidente medíocre. Hoje, após o impeachment, a história se lembrará dela como uma mártir.

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