Espécie ameaçada de extinção
Sexta, 23 de Setembro de 2016

A incansável luta pela sobrevivência de uma espécie ameaçada de extinção. Um pouco longo, é verdade, mas este seria o meu título para a tentativa de alguns deputados de votar, no apagar das luzes, um projeto anistiando quem até aqui fez caixa 2 em campanhas eleitorais. Eu entendo o desespero. Com mais de 200 nomes de políticos aparecendo em listas de empresas investigadas na Lava-Jato e sabe-se lá quantos outros ainda podem aparecer nas delações premiadas, tem gente defendendo que se coloque barras de ferro no Congresso Nacional e o transforme em uma grande cadeia – falando apenas em caixa 2, sem mencionar outros crimes.

É ingênuo quem pensa que fazer caixa 2 não era, até aqui, uma regra. Foi o que garantiu ampliações de bancadas, várias reeleições seguidas dos mesmos candidatos, que impediu via poder econômico maior renovação das bancadas, que garantiu a manutenção de caciques, que fez a diferença em eleições para todos os cargos públicos, que deu corpo a candidaturas de vereadores que posteriormente retribuíram apoios, etc.… enfim, a lógica da vitória em eleições sempre esteve relacionada ao caixa 2. Não é exclusividade dos grandes, pois os pequenos historicamente ofereceram os poucos segundos a que tinham direito na propaganda eleitoral em troca de “reforço de caixa”. Até quem não queria fazer, para conseguir obter sucesso num pleito, teve que entrar no jogo. E, pior, mesmo quem não fez caixa 2 em algum momento deve ter recebido, a título de doação, valores “não contabilizados”.

Entretanto, embora se trate de uma espécie de regra informal, o caixa 2 sempre foi proibido. Todos os que se aproveitaram disso sabiam que não era correto e que poderiam ser punidos. Agora, propor “resetar”, zerar o cronômetro, limpar o placar, começar do zero e se manifestar em tom sério, como alguns fizeram, dando um tom de “salvação nacional”, é o maior dos deboches. Eu pergunto para o cidadão comum: alguma vez você teve um tratamento diferenciado como o que está sendo proposto? Depois de cair na malha fina, a Receita Federal te disse: “eu compreendo, todo mundo faz, deixa assim, só não faz de novo no ano que vem”. A possibilidade de cair meio Congresso justifica uma anistia? Fingir que, a partir de agora, não pode mais garante alguma coisa? Quem se manteve até hoje graças a esse subterfúgio, de uma hora para outra, vai deixar a prática de lado? Cachorro que come ovelha vira vegetariano?

Eu sei que há dois tipos de exceções. Os raros que realmente evitaram a prática e aqueles que fizeram de forma muito bem-feita, sem deixar rastros, e com moderação para não levantar suspeitas. Se os órgãos investigativos e o Judiciário agirem de maneira séria, serão apenas esses dois tipos que vão sobrar. Se você concorda com isto, é muito importante que fique de olho no seu candidato, na maneira como ele se comportou (e se comportará) nos capítulos dessa novela. Uma dica: se fizer parte de quem apoiar a anistia, desconfie. Pode ser isso uma espécie de confissão.

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