Ser prefeito é complicado
Sexta, 30 de Setembro de 2016

Eu não sei descrever de outra maneira. Quando alguém decide se candidatar, com certeza deve imaginar-se resolvendo todos os problemas da cidade. Eu duvido que alguém concorra sem ao menos ter, nem que seja por alguns segundos, sonhado acordado com tudo aquilo que gostaria de fazer. Eu acredito piamente nas boas intenções de quem encara uma eleição (ao menos, nas primeiras eleições). Duvido que alguém não almeje deixar um legado, uma marca, algo que o faça reconhecido.

Disse que ser prefeito é complicado porque, por melhores que sejam suas intenções, não vai conseguir fazer tudo. Não vai agradar a todos. Com orçamento enxuto, dependendo de programas do Governo Federal (com o Estadual não dá para contar muito), um prefeito passa os quatro anos convivendo com um cobertor curto. Se investe em um lado, corre o risco de deixar aberta outra área. Ao final do mandato, sempre vai ter algumas ruas esburacadas ou sem asfalto, algum prédio público em más condições, algum problema na coleta do lixo, alguma praça mal conservada. Não adianta.

E os parceiros? Como agradar a todos? Como lidar com uma competição de vaidade velada que sempre acontece? Como dizer para aquele puxa-saco que ele não tem perfil para determinada função? Como acomodar os aliados, tirar o melhor deles em favor da cidade, sem os deixar descontentes, sem que ninguém se sinta desvalorizado ou reclamando que ganha menos e trabalha mais do que o fulano? O ego persegue um prefeito: ou se é dominado pelo próprio, ou fica no meio de uma guerra dos outros.

Cada reclamação de um eleitor deve doer na alma de um prefeito. Afinal, poucos compreendem as dificuldades, a burocracia que se enfrenta, as contas apertadas. Ninguém quer saber se, no município, o prefeito foi o último a dormir e o primeiro a acordar. Para cada elogio que recebe, tem dez críticas no bar da esquina. É por isso que, na maioria das vezes, um prefeito só é reconhecido com o distanciamento que o tempo proporciona, quando se pode comparar com outras administrações.

Um prefeito – e qualquer outro ocupante de cargos executivos – passa quatro anos por uma espécie de solidão. Mesmo que viva cercado de pessoas. Porque todo mundo tem opinião para tudo, todos sugerem, mas nem sempre os próprios assessores entendem quais são as prioridades que o próprio escolheu para o mandato. Muitos até o defendem passionalmente, porém nem todos conseguiriam sustentar a defesa na base de argumentação e dados. Pois como dizer para alguém que demorou horas num posto de saúde que a administração é boa?

Neste domingo, quero deixar um abraço para os prefeitos que estão deixando o cargo e para todos aqueles que estão pleiteando a cadeira mais importante do município. Para quem sai, desejo a consciência tranquila de quem tem a certeza de que fez o melhor. Para quem disputará neste domingo, boa sorte. Quem for eleito, vai precisar.

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