A mesma cultura política
Sexta, 21 de Outubro de 2016

Pronto! Conseguimos. Estamos de parabéns! Acirramos os ânimos a tal ponto que já temos um grande exemplo do que pode resultar da combinação entre cegueira passional em doses cavalares diluídas em pingos de debate político raso tomados por sede por poder. Refiro-me ao caso de Porto Alegre. Num dia, o comitê de um candidato a prefeito é alvejado por 15 tiros, obrigando as pessoas que estavam dentro do recinto a se abaixar. Dois dias depois, é encontrado morto um dos coordenadores da campanha adversária, suposto caso de suicídio, mas que deixa muitas suspeitas de pressão e ameaças como motivos. E o mais curioso: não era nem uma disputa entre “direita” x “esquerda”.

A “milícia” saiu das redes sociais, em que, já há algum tempo, arruínam reputações com boatos, fofocas, distorções, descontextualizações. Tudo bem, eu sei que não é novidade campanha com tiros, ameaças, brigas. Na maioria dos municípios há “causos” semelhantes. A bagunça sempre rolou solta. Contudo, eu esperava bem melhor comportamento neste pleito, em que a duração da campanha foi menor, os custos foram limitados, e até os materiais a serem usados nas divulgações foram restritos e padronizados. Por mais que as instituições tenham se esforçado (ao menos mais do que de costume, embora tenhamos notícias de vários casos de vista grossa) para focar as campanhas em debates qualificados, os candidatos e os eleitores ainda não se acostumaram com isso.

Eis o grande fato negativo das campanhas Brasil afora. O eleitor ainda se vende, o caixa 2 ainda existe, o poder econômico ainda predomina, o interesse pessoal sempre está acima de qualquer desejo coletivo. Por isso não consigo culpar apenas os candidatos que fazem jogo sujo. Estamos numa fase do eterno processo civilizatório em que um torcedor de futebol é mais consciente do que militantes políticos.

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Diante de todas as divergências do país, apenas uma coisa une mais a todos do que jogo da seleção em Copa do Mundo. A vontade de ver Eduardo Cunha preso. Digo, todos menos os políticos que já mantiveram algum tipo de relação política com o ex-presidente da Câmara dos Deputados. Queria estar circulando pelo Congresso para sentir o clima que antecede a abertura da caixa de pandora. Imagina uma delação premiada do Cunha, que, como todos sabem, tem influência sobre dezenas de políticos, partidos e assessores. Inescrupuloso para lidar com o bem público, hábil nas articulações políticas, com um cérebro privilegiado para armazenar e disparar dados, Cunha tem tudo para derrubar a República. A expectativa, no caso, é só uma: ele vai cair atirando ou não?

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